quarta-feira, 18 de setembro de 2019

ESTAR CONSCIENTE

“Obter autoconsciência é uma tarefa árdua, e como a maioria de nós prefere uma maneira fácil, ilusória, nós criamos a autoridade para dar forma e padrão à nossa vida. Essa autoridade pode ser o coletivo, o Estado ou pode ser o pessoal, o Mestre, o salvador, o guru. Qualquer tipo de autoridade é cega, gera imprudência”.

“Temos mais confiança no que copiamos do que naquilo que criamos. Não podemos produzir uma sensação de absoluta segurança de nada que tenha a raiz em nós mesmos.”

“Eu não acredito mais em estilos. Quero dizer que eu não acredito que haja algo como, o modo chinês de lutar ou o modo japonês de lutar (…) e os estilos tendem a separar os homens, porque eles têm suas próprias doutrinas e a doutrina se tornou a verdade inquestionável que você não pode mudar. Mas, se você não tiver estilos, se apenas disser, “Aqui estou eu, um ser humano, como eu posso me expressar, total e completamente?”… dessa forma, você não criará um estilo, porque estilo é uma cristalização. Assim se entra em um processo de crescimento contínuo.”

J. Krishnamurti

terça-feira, 3 de setembro de 2019

A História Secreta da Humanidade


Os Sete Níveis de Uma
Evolução de Longo Prazo

Carlos Cardoso Aveline

Estudante A: 

A obra “A Doutrina Secreta”, de Helena P. Blavatsky, fala de sete raças-raízes pelas quais a humanidade deve passar, ao longo de períodos de tempo que para nós são absolutamente gigantescos.

Estudante B:  

Sem dúvida. A onda de vida que habita o reino humano deve evoluir através de sete raças-raízes no ciclo atual. Cada raça-raiz inclui povos de características físicas bastante diferentes e nenhum é melhor do que outro. Igualmente, nenhuma raça-raiz é melhor ou pior que outra. Todas compartilham a mesma essência universal. As mônadas ou almas imortais são todas de um caráter sagrado do ponto de vista esotérico, independentemente do seu grau de evolução ser maior ou menor.  

Estudante A: 

Qual é, então, o papel da solidariedade na evolução da vida?  

Estudante B:  

A lei da evolução é a lei da fraternidade. A longo prazo, a falta de fraternidade é apenas uma forma passageira de ignorância espiritual que, quando predomina excessivamente, bloqueia a evolução e por isso provoca o final de uma etapa.  Frequentemente é deste modo que ocorre o final das civilizações.

Dizer que o homem é um animal social é o mesmo que dizer que o homem é um animal solidário. Mas, na verdade, todos os animais são solidários e não há vida sem amor e ajuda mútua. Charles Darwin errou ao pensar que a lei da evolução é uma lei fundamentalmente de competição. Piotr Kropotkin comprovou que, como fator da evolução,  a ajuda mútua é muito mais importante  do que a competição. Kropotkin também mostrou que a lei da ajuda mútua vale para todos os reinos,  desde a evolução  química e mineral, até a sociologia e a história humana, passando pelo reino vegetal e pelo reino animal. [1] O homem é, portanto, muito mais do que um animal solidário. Cada ser humano é uma alma imortal que vive simultaneamente em vários níveis de realidade. Entre eles estão o plano da consciência física, o plano das emoções animais e o plano da inteligência divina.

Estudante A:  

A teosofia fala de tempos quase eternos.  Uma raça-raiz da nossa humanidade dura um período tão longo que não se pode imaginar facilmente. 

Estudante B: 

Sem dúvida.  Uma raça-raiz passa por sete estágios de longo prazo, chamados de sub-raças.  E cada sub-raça é suficientemente duradoura para incluir uma longa série de civilizações.  

Estudante A:  

As sete raças-raízes sucessivas do período “atual” de evolução humana – um período de incontável extensão do ponto de vista do ser humano de hoje em dia  –  formam uma espécie de espiral, que dá lugar a outra espiral, e assim sucessivamente ao longo do tempo cósmico, como explica H. P. Blavatsky.  Nesta espiral, as duas primeiras raças, e as duas últimas, não são físicas?  

Estudante B:  

Pode-se dizer isso, sim. Pelo menos a primeira e a segunda raças-raízes, e a sexta e a sétima, não são propriamente físicas. A passagem é gradual.  Nas primeiras raças, “os anjos habitavam a terra”.  Os “anjos”  eram as mônadas humanas. No futuro distante resgataremos isso tendo aprendido tudo o que deveríamos aprender.  

Estudante A:

É bom ter acesso a uma visão saudável do futuro de longo prazo.  Mas se as raças-raízes mais antigas ainda não eram físicas, e as raças-raízes futuras já não serão físicas,  é necessário perguntar uma coisa. Havia reencarnação naquele tempo?  E haverá reencarnação no futuro de longo prazo?   

Estudante B: 

Não havia, e não haverá, por falta de necessidade. A ausência de reencarnação nas primeiras raças humanas ocorre porque os seres humanos eram espirituais e não tinham personalidade.  A morte só acontece para o plano físico e para a personalidade.  É por isso que o eu inferior é qualificado como ilusório pelo budismo filosófico e pela teosofia. Ele é ilusório porque é mortal. Durante as duas primeiras raças, ao final de uma vida humana não havia morte, mas uma transição, uma transmutação, como simbolizado na lenda da ave Fênix. Não havendo morte nem perda de consciência,  não podia haver reencarnação.

Estudante A:  

Há quanto tempo terminou esta etapa?   

Estudante B:   

A evolução do espírito e da matéria ocorre simultaneamente em nosso planeta e no Universo. As primeiras raças-raízes viveram há muitos milhões de anos atrás. Naquele tempo o planeta tampouco estava fisicamente pronto para abrigar a vida orgânica. Helena P. Blavatsky diz que neste tempo nós tínhamos “sombras de corpos”. Flutuávamos acima do plano físico.  

Estudante A: 

Você diz “nós”, ao se referir aos seres humanos daquele tempo. Éramos nós de fato?

Estudante B:  

Sim, no sentido de que as mônadas humanas são as mesmas. Só a “roupagem” externa e inferior mudou, assim como o meio ambiente físico do planeta.  

Neste sentido, a visão teosófica sobre a origem do ser humano afirma exatamente o contrário da filosofia biológica materialista.   Os darwinistas não percebem a diferença entre o ser humano e o seu instrumento externo e denso. Eles parecem pensar que os corpos geram as almas. Isso seria o mesmo que pensar que um automóvel pode produzir o seu proprietário. Os darwinistas defendem a tese de que o instrumento é que cria o seu dono. Na verdade as almas  (as mônadas)  em evolução  necessitaram de veículos ou instrumentos como os corpos físicos atuais,  e então foi surgindo gradualmente o corpo humano, que é claramente uma ferramenta a serviço da vida interior. O instrumento físico é resultado da relação dinâmica de longo prazo  entre as almas (mônadas) e o mundo material.  A evolução prossegue.  Há sempre uma tensão criadora na relação entre consciência terrestre e consciência celestial. Esta relação dinâmica também ocorre em pequena escala na consciência de cada um de nós.  

Nossa atual raça-raiz, a quinta,  deve passar por sete estágios de longo prazo chamados de sub-raças.  E cada sub-raça inclui uma lista numerosa de civilizações. Estamos iniciando na etapa atual a segunda metade da quinta-raça raiz. E, mais precisamente, estamos iniciando – em uma espiral menor – a segunda metade da atual quinta sub-raça.   Estamos vivendo as primeiras luzes da sexta  sub-raça da quinta raça-raiz.  Será uma sub-raça intuitiva, universalista, fraterna. [2]  

Estudante A: 

Isto tem a ver com a era de Aquário?  

Estudante B:  

Sim. Na era de Aquário, que já começou, ocorre o despertar mais claro da inteligência espiritual, o sexto princípio, Buddhi.   

Estudante A: 

Em que escala de espaço-tempo vivem os altos iniciados?

Estudante B:

Os altos iniciados e Mestres de Sabedoria vivem em uma escala de tempo quase eterno do nosso ponto de vista. Eles possuem a consciência acumulada das sete raças. A reencarnação, para eles, já não existe do ponto de vista prático. Eles não têm a experiência da morte pessoal como uma  perda de consciência, porque vivem conscientemente em uma dimensão de espaço contínuo que é planetária e interplanetária,  e numa dimensão de tempo contínuo que é de milhões de anos. 

O aprendizado teosófico consiste na preparação para isso. Ele acelera a expansão natural da consciência humana em direção ao cosmo.  Daí a importância do estudo da obra “A Doutrina Secreta”, que aborda  a consciência universal em seus vários níveis. Deste modo podemos compreender melhor a evolução da humanidade como algo que é uma parte inseparável  da evolução do planeta, e aceitamos o fato de que, quando uma civilização não serve mais à evolução interior da vida, ela é simplesmente descartada, como já ocorreu em inúmeras oportunidades.  As civilizações passam: o ser humano permanece, renascendo sempre.  

Estudante C: 

Tanto individual como coletivamente, a vida é setenária. O espectro da luz solar também se divide em sete componentes. Há sete planetas sagrados. A escala musical tem sete notas. Isso está ligado à chamada “música das esferas” da tradição pitagórica?  

Estudante B:

É claro.  A vida é não só setenária. Vista do ponto de vista do longo prazo – ela  se desdobra como uma música sagrada tocada em um instrumento de cordas. Ela percorre as sete notas musicais ou frequências vibratórias, colocando a ênfase ora numa nota, ora na outra, sucessivamente.  No caso humano, no prazo mais “curto” de dezenas e centenas de milhares de anos, temos as sete sub-raças. No prazo mais longo, de milhões de anos,  temos as raças-raízes; para não falar de ciclos ainda maiores.  É neste contexto amplo que se deve compreender a escala de vibrações atuais da vida no planeta Terra, conforme ensinam as obras “A Doutrina Secreta”, “Ísis Sem Véu” e “Cartas dos Mahatmas”.

Estudante C:

Para evoluir, o ser humano atual necessita evoluir em sete níveis de realidade ao mesmo tempo, inclusive o físico.  Como era possível, então, durante as duas primeiras raças-raízes, evoluir sem o corpo?  E como será possível fazer isso na sexta e na sétima raças-raízes?     

Estudante B:

Tudo depende do estágio em que está a onda de vida.

Todas as coisas que há no universo são setenárias. Os sete princípios da consciência estão presentes pelo menos implicitamente em cada um dos níveis de realidade. O Todo está sutilmente presente em cada uma das suas Partes.  

Em “A Doutrina Secreta”, lemos que tudo o que há no universo possui um determinado grau de consciência – inclusive as pedras. [3]  Qualquer objeto que tomemos do chão para examinar é setenário. Mas sua existência se concentra no físico (primeiro princípio), e ele tem os seis princípios superiores implícitos.  

Uma árvore sob cuja sombra podemos sentar é setenária. Mas sua existência se concentra especialmente nos três princípios inferiores. O primeiro deles é o físico; o segundo é o vital (prana),  e o terceiro princípio é o genético-arquetípico (linga-sharira). Os outros princípios da árvore estão no plano da potencialidade, mas ela já possui lampejos de mais um princípio, kama, o quarto princípio, dos sentimentos e emoções.

Plotino escreveu que as plantas buscam a felicidade.  Elas também possuem inteligência. H. P. Blavatsky afirma que as plantas têm um certo projeto de vida, e até mesmo um grau de livre arbítrio.[4] 

Uma nota mais acima na escala musical, os animais mamíferos – como o cachorro, o gato, o golfinho, o elefante, a baleia, o cavalo –  são igualmente setenários. Mas sua existência se concentra especialmente nos quatro princípios inferiores: 1) o físico, 2) o vital, 3) o genético-arquetípico e 4) o centro das emoções (kama). Apenas os seus três princípios superiores ainda estão no plano implícito, ou da potencialidade.  

Assim como as plantas têm lampejos de sentimento, as espécies do reino animal têm lampejos de percepção mental. As espécies citadas acima são casos à parte. Elas estão entre as mais evoluídas do reino animal e vão muito além de meros lampejos.  Dialogando por computador, alguns símios chegam a manejar vocabulários de quase mil palavras.  Um cachorro também possui um vocabulário amplo, embora sua linguagem sonora talvez lembre a linguagem das primeiras raças humanas, com longas vogais e sem consoantes. Chamamos os vários aspectos da linguagem canina de rosnado, grunhido, ganido, gemido, choro, latido e uivo.  Além do som, o idioma dos cachorros  também é amplamente corporal e facial, o que pode ser equivalente a milhares de palavras ou unidades de comunicação.  Um golfinho tem grande inteligência e capacidade de empatia pessoal com humanos, e sabe dialogar profundamente com seu treinador, inclusive por telepatia.

Estudante A: 

Nesta escala como fica o ser humano?  

Estudante B:  

O ser humano também é setenário. Mas sua existência, na maior parte dos casos, se concentra especialmente nos quatro princípios inferiores e na metade inferior do quinto princípio, o princípio mental.  Esta é a parte da mente que gravita em torno dos planos físico e emocional. Os dois princípios superiores ainda estão basicamente implícitos. Eles são Atma e Buddhi, os dois princípios que constituem a mônada imortal. Mas o ser humano já tem lampejos de inteligência universal, buddhi.  Alguns indivíduos, inclusive, têm mais que lampejos. O aprendizado teosófico consiste precisamente em desenvolver e estabilizar estes “lampejos”,  transformando-os em uma lucidez contínua.  

Os Mestres de Sabedoria são seres que foram além do estágio humano atual e dominam os sete níveis de consciência, desde o átmico até o físico (sthula-sharira). A consciência normal de um Mestre,  seu centro natural de gravidade – o ponto em que ela está quando não faz esforço – é a consciência da mônada (sexto e sétimo princípios).   

Nossa humanidade vive agora os primórdios do despertar da sabedoria, e a crise atual é probatória. Ela é necessária para romper a casca da semente da consciência búdica, e libertar a inteligência universal através da sua germinação na consciência livre dos indivíduos.  

Toda semente, física ou não, tem uma “dormência” ou um estado de amortecimento que deve ser quebrado para que haja a germinação. O calor e o atrito são necessários para romper o estado de  dormência. As crises rompem as rotinas. O que deve despertar na consciência humana atualmente é a inteligência universal,  que abrirá caminho para a próxima sub-raça, a sexta. Depois de muitos milhões de anos, é a retomada do caminho para o alto. A etapa consciente  da preparação para a sexta etapa da quinta raça-raiz começou a sete de setembro de 1875, com a criação do movimento esotérico moderno. 

Estudante A:  

A evolução da mônada – o peregrino – se dá em espiral, portanto, e agora começa a apontar novamente para cima.  

Estudante B:  

Exatamente. Na primeira e na segunda raças-raízes, a mônada humana só exercita  plenamente a consciência nos níveis superiores. Isso ocorre porque a vida que vem do alto só gradualmente se aproxima do encontro com a matéria densa; e a matéria densa do planeta também só gradualmente se prepara para abrigar a vida. Em certas passagens de “A Doutrina Secreta”, H. P. Blavatsky  se refere  às primeiras raças-raízes como sendo etapas “pré-humanas”, ou “divinas”. Nelas a natureza está fazendo soar as notas mais sutis e elevadas da escala musical.  

A terceira, a quarta e a quinta  raças-raízes são as mais materiais. E as duas últimas raças-raízes, a sexta e a sétima, fazem  a onda de vida humana voltar ao mesmo plano transcendente de existência em que ela estava no início. Embora a mônada humana continue a ser essencialmente setenária, agora ela limita novamente o exercício pleno da sua consciência aos níveis superiores de percepção. É a volta para casa. Ela já peregrinou o suficiente, durante a longa passagem pelos planos inferiores de realidade.

Estudante A: 

Como ficam, então, as teorias científicas segundo as quais a origem do homem é material?  

Estudante B:

O ser humano é uma combinação nem sempre estável de matéria e espírito.  Deste choque criativo surge a cada vida uma alma mortal que liga o que é celestial (a mônada) ao que é da terra (a matéria densa).  Se de um lado nossos corpos físicos têm algo em comum com o solo, os vegetais e os animais mamíferos, de outro lado as nossas almas e a nossa inteligência vêm do reino divino. Espiritualmente, somos filhos do Sol. O  conceito teosófico de “ser humano” para a etapa atual do processo evolutivo do planeta é esta complexa conjunção de inteligência divina e de sub-inteligência animal, para não falar das inteligências vegetativas, que são indispensáveis ao bom funcionamento do  organismo físico. Blavatsky escreveu que cada célula tem consciência, quer percebamos ou não.  

Estudante D:

A mônada é individual?   

Estudante B:  

A mônada é individual e universal ao mesmo tempo. É individual no sentido de que ela peregrina pelo mundo mineral, mais tarde pelo reino vegetal, depois pelo reino animal, pelo humano, e pelo pós-humano.  Mas a mônada é universal no sentido de que ela não possui a consciência “individual” ilusória de um ser humano em estado de vigília,  porque ela está plenamente unida à lei universal. 

É preciso dizer que a mônada – termo usado por Leibniz – é um verdadeiro mistério. As realidades transcendentes só podem ser compreendidas com ajuda da intuição espiritual. O cérebro físico não basta. No entanto, o cérebro pode fazer um pouco de ginástica e de exercício para flexibilizar-se. Assim ele descobre o jeito de chegar ao tipo correto de silêncio, que é o silêncio simétrico, o silêncio completo,  capaz de abrir  espaço para o relâmpago da compreensão.  

Estudante D: 

Certo.  Mas quando é que surge ou “nasce” uma mônada?   

Estudante B:

Nem as coisas, nem o universo, têm um só início.   Tudo é cíclico, tanto em pequena escala como em grande escala.  O Universo se dissolve e se refaz ciclicamente com a mesma “massa de modelar”, que será novamente trabalhada pelo espírito.  Espírito e matéria são eternos. As obras que resultam da interação de ambos são retomadas a cada nova maré de manifestação e criação.   

As mônadas atravessam os reinos da natureza, antes de chegar às civilizações humanas. Uma civilização é a casca, a roupa. Quando a roupa fica velha, rasgada, é trocada porque já não serve à peregrinação das mônadas. 

Estudante A:  

Você está se referindo à crise climática que está sendo provocada pelo excesso de dióxido de carbono?  

Estudante B:  

Sim. É fácil perceber que a civilização atual não é mais viável, nem ecológica nem eticamente. A civilização da mente egoísta, que se coloca a serviço dos instintos cegos, encontrou o seu limite. Segundo o IPCC, o Painel Intergovernamental da ONU, estamos ingressando em uma grande mudança climática. Cientistas independentes de todas as áreas dizem o mesmo. Considera-se o processo praticamente irreversível. Embora a humanidade como tal não corra perigo, é possível que o planeta esteja no final de um dos seus períodos interglaciais. Neste caso a transformação não será suave. O trabalho de Al Gore diante da questão climática é confiável.  

O século 21 deve, portanto, trazer transformações significativas. Existe um materialismo excessivo e um esvaziamento interior na civilização atual, e uma renovação é oportuna.  Nas “Cartas dos Mahatmas para A. P. Sinnett” (Ed. Teosófica, dois volumes), lemos que “os acontecimentos futuros lançam sua sombra sobre o momento presente”.  Quase todos sabem que “alguma coisa geológica” já começou; e também que uma nova inteligência planetária está a surgir coletivamente. Esta inteligência corresponde ao sexto princípio da consciência, que caracteriza a preparação do sexto tipo ou sexta sub-raça da atual raça-raiz.

Enquanto abrimos espaços individuais e coletivos para que possa emergir mais facilmente a sabedoria interior do princípio búdico, há uma coisa que não se deve esquecer em hipótese alguma. Ainda que venha a ser incômoda, a mudança planetária traz ao longo do século 21 uma civilização renovada e sustentável, em cujos alicerces estarão os princípios da ética universal e da ajuda mútua. 

NOTAS: 

Para conhecer a teosofia original desde o ângulo
da vivência direta, leia o livro “Três Caminhos
Para a Paz Interior”, de Carlos Cardoso Aveline.
[1] “El Apoyo Mutuo, um factor  de la evolución”, Piotr Kropotkin, Editorial Proyección, Buenos Aires, 1970, 334 pp.  Em inglês, “Mutual Aid, a factor of evolution”, Dover Publications, New York, 2006, 314 pp.  Entre outros, um cientista pioneiro da ecologia,  Eugene P. Odum, alertava a meados do século vinte para o fato de que a ajuda mútua foi subestimada como fator  vivo no processo de evolução, devido ao peso da influência darwinista. (Veja a obra clássica “Fundamentals of Ecology”, de Eugene P. Odum, W.B. Saunders Company, 1959, Philadelphia and London, second edition p. 242.) 

[2] A referência às raças imortais  da nossa humanidade (passadas e futuras) está na edição original de “A Doutrina Secreta” em inglês,  Theosophy Co.,  volume II, p. 610. Vale a pena examinar também a p. 615. 

[3] “The Secret Doctrine”, Helena Blavatsky, Theosophy Co., Los Angeles, volume I, p. 274.

[4] Em relação a Plotino, veja o tratado IV, na primeira das suas “Enéadas”. Em relação a H.P.B., veja “Collected Writings of H. P. Blavatsky”, TPH, India, volume X, p. 362.  


sábado, 24 de agosto de 2019

A INICIAÇÃO


“A Alma Humana é a parte mais elevada do ser humano, a Mônada. Mas a partir do momento em que a Mônada criou da alma-grupo animal, no momento da individualização, o corpo causal, a ‘Centelha’ pende da Chama pelo mais tênue fio de Fohat. Até a hora da Iniciação, o Ego, embora ligado dessa maneira à Mônada, não teve meios de se comunicar com o seu próprio aspecto mais elevado. Mas na Iniciação, a Mônada, chamada pelo Hierofante, desce até o corpo causal para receber os votos da Iniciação. A partir desse momento, o ‘mais fino fio de Fohat’ torna-se algo como um feixe de fios, e o Ego, em vez de pender meramente como ‘centelha’ se torna parecido com a extremidade inferior de um funil, o qual é virado para cima, para a Mônada, recebendo dela vida, luz e força. A partir da Iniciação, o iniciado ganha uma virilidade e um poder de resistência que não tinha antes, e ele encontra em seu próprio ser uma ‘Rocha Milenar’ que nada pode abalar.” 

Jinarajadasa
Fundamentos de Teosofia – Editora Teosófica

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

O VERDADEIRO INICIADO


Quando se fala do Iniciado, as pessoas em sua grande maioria tem a tendência em imaginar Grandes Rituais Iniciativos que acontecem em algum equinócio, aonde apenas aqueles que possuem Verdadeiros Mestres e Gurus são abençoados à seguir o Caminho da Magia. E em suma, é muito raro se encontrar com estes Grandes Mestres hoje em dia, principalmente pois os mesmos não revelam os seus segredos, e por mais que eles consigam enxergar você, você nunca irá enxergar eles. Pois a maioria dos Grandes Mestres são silenciosos.

Esta Ideia do Iniciado é falsa, é apenas uma analogia simbólica da palavra do “Iniciado nas Ciências Ocultas”. O Ritual de Iniciação, para as Ordens e Seitas, nada mais é do que a simbolização do Adepto adentrando no Caminho do Auto-Conhecimento. Não é algo reservado para poucos, qualquer um pode ser um Iniciado, mas obviamente não são todos que irão ser Verdadeiros Iniciados. Pois estes são os estudantes das ciências ocultas. Sendo assim, senhores, não sejam iludidos pela visão de que vocês não podem ser “Verdadeiros Iniciados” pela falta de um Mestre ou Guru. Isto é apenas desculpa para ficar parado se lamentando e não fazer nada.

A Magia é apenas a Ciência Divina. É uma extensão da Consciência e das faculdades mentais. O Verdadeiro Ritual Iniciático se da dentro de você, e não a despeito de forças exteriores que te “permitem” trilhar este Caminho. A Iniciação é a compreensão de você mesmo e dos seus mecanismos de defesas.

Inevitavelmente, uma vez que as pessoas levantam esse véu invisível que separa os Iniciados dos Não-Iniciados, lhe é revelado todo um sentido que não é sentido (pelo menos no começo) para o mesmo. Muitas pessoas já são iniciadas no Caminho Mágico e nem mesmo o percebem, dentre estes podemos incluir Filósofos, Artistas, Professores, Escritores, e etc.

A Iniciação é o começo da compreensão de si mesmo e do autoconhecimento que é a arma mais valiosa de qualquer ser humano. Apenas se desvinculando de todos os grilhões da realidade que outros estabeleceram para você como verdade (e até você mesmo), é que você será livre para dar Luz a Estrela que em você habita. “Pois vos digo que todo homem precisa de Caos dentro de si para dar luz a uma estrela dançante.” – Nietzsche.

Apenas concebendo o Caos dentro de você, que nada assume como Verdadeiro, é que você tornar-se-á iluminado pela Luz da Revelação e conhecerá assim os segredos da vida, e da morte. O Mago, nada mais é do que alguém que tem pleno entendimento de toda a premissa básica e das Leis Universais que tudo regem. É o controlador dos Elementos e reconhece a sua função primordial em tudo que É. 

O Mago é o Estudante das Faculdades Mentais e da Ciência Oculta. O Iniciado é o Intelectual e o Maduro. É a Estrela da Manhã, que brilha a todo esplendor, mas que olhos não conseguem enxergar diretamente, pois estes não conseguem ver além dos próprios olhos.

O Caminho do Iniciado, se da no instante em que o mesmo sai do Plano Denso das Idéias e entra no Portal da Longa Vida. É o que comumente chamam de “Ponto sem Retorno”, onde apenas o pequeno deslumbre a respeito de microcosmo e macrocosmo e a inexistência da dualidade que dá origem a Lei da Analogia e Polaridade é efetivada. Pois no Inicio era Um. 

O Ser e o Não-Ser foi o principio de toda a Dualidade, e sendo assim existia a Zona Neutra. Onde tudo havia, mas nada estava manifestado. E esta Zona Neutra, que era a inércia que assimilava as características dos dois pólos era apenas um reflexo do mesmo. Era a ausência de polaridade, a Harmonia e Equilíbrio Supremo. Sendo assim, O que está em cima é como o que está embaixo.

Apenas o vislumbre momentâneo desta, é o suficiente para desconectar a pessoa de seu Plano Denso e elevá-la á um outro patamar, aonde suas necessidades serão outras, guiadas por outros desejos. 

O Caminho do Iniciado, que é o Caminho que não há volta, é o caminho do Aprendizado, da Construção e da Realização. O Magista haverá de fazer alguns sacrifícios e renuncias se é que assim pode chamá-los. Porém, através destes sacrifícios, seus ganhos serão de valor inestimável.

A Árvore da Vida da Qabalah, nos Guia através de suas Sephirots até o ponto onde o Ego é confrontado e o Abismo de Choronzon revelado. Percorremos o Caminho, nos aperfeiçoando e purificando toda a Ideia a respeito do nosso Eu, apenas para no final o confrontarmos pela Ultima Vez. Este será o Grande Sacrifício para o qual estaremos uma vida nos preparado. É o combate cara-a-cara com Choronzon, aonde saudaremos a Morte da Individualidade, por mais simbólica que seja. E então, quando não haver mais espaço para dualidades e opostos, e o Equilíbrio uma vez mais for refletido na Lei da Analogia, então nossa Grande Obra estará completa.

O Caminho é Solitário. Pois as mudanças do Magista influenciam principalmente internamente e secundariamente sobre eventos externos. As mudanças mais perceptíveis serão vistas apenas por seus olhos, e ao longo do Caminho, um senso de Sabedoria começará a nascer de modo muito belo. O Caminho é Solitário, pois é preciso tempo para refletir e silêncio, base da qual advém a possibilidade de trilhar este Caminho. Existem diversos meios de se chegar no fim desta. Exatamente como varias pessoas que tentam chegar a um mesmo local, algumas preferem certos caminhos, outras preferem outros. Existem diversas simbologias e instrumentos que podem nos favorecer e facilitar esta Grande Obra, cabe ao próprio Magista reconhecer essas ferramentas e fazer o uso adequado das mesmas. As Vias podem ser diversas, mas o Destino é sempre o mesmo. E no final de tudo, quando não houver mais a individualidade, ego ou ilusão, a Lei Máxima de Thelema haverá de ser completada: “Faze o que Tu Queres” – desde que não influencie na liberdade do outro ou o prejudique.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

A Ética Humana e os Terremotos

Por Damodar. K. Mavalankar

A imagem pode conter: 2 pessoas, pessoas sentadas e textoAs teorias formuladas atualmente pelos cientistas em relação aos terremotos não são satisfatórias.

Os hindus têm uma superstição segundo a qual a grande serpente Basuki leva a Terra sobre sua cabeça, e quando a Terra se torna demasiado pesada devido a seus pecados, esta serpente move sua cabeça, provocando terremotos.

Se tratarmos de ir ao fundo desta superstição poderemos ter um vislumbre do que os antigos pensavam sobre a causa dos terremotos.

De acordo com a filosofia tântrica da ioga, a Terra é sustentada por uma força chamada Kundalini shakti. Esta força é a vida da Terra. Ela é simbolicamente representada por uma cobra entrelaçada em três voltas e meia em torno do linga-sharira da Terra. No microcosmo, esta força é um estado de tensão que produz uma corrente, cujo movimento ocorre ao longo de um caminho em espiral.

De acordo com o professor Maxwell, a eletricidade é um estado de tensão no éter luminífero, e todos os fenômenos da força magnética são observados quando a eletricidade flui ao longo de uma bobina em espiral. Com base nisso podemos pensar que o que se chama de magnetismo na ciência moderna é uma forma da Kundalini shakti dos iogues hindus. Os cientistas comprovaram o fato de que esta Terra é um grande ímã. E penso que a perturbação interna no magnetismo terrestre é representada simbolicamente pela superstição citada acima em relação à causa dos terremotos.

Os cientistas modernos não veem qualquer conexão entre a causa dos terremotos e acontecimentos no plano mental da Terra. Mas quando eles compreenderem que não há qualquer coisa parecida com casualidade no universo, que cada acontecimento visto como aparente casualidade é o efeito de uma força no plano mental, eles poderão perceber por que os hindus supersticiosos olham para os terremotos como efeitos dos pecados acumulados que os seres humanos cometeram.

Compreendida adequadamente, a superstição dos hindus significa o seguinte: que o efeito acumulado dos maus Carmas dos seres humanos na Terra, impressos no fogo astral, é produzir uma mudança na posição do centro de força da vida terrestre. Esse centro de força, a que os hindus dão o nome Padma ou Chakra, é a cabeça de Basuki. Quando para preservar a si mesma a Terra necessita mudar a posição do centro da sua vida ativa, surge uma perturbação no magnetismo interno da Terra e ocorrem terremotos – entre outros fenômenos -, do mesmo modo que acontecem tremores nervosos no corpo de um ser humano.

Só um Adepto, alguém que conhece profundamente todos os departamentos das forças naturais, pode saber até que ponto esta visão dos hindus está correta. Que o leitor busque obter a ajuda de um adepto para esclarecer suas dúvidas; e, tendo dito isso, nada mais tenho a dizer.

terça-feira, 28 de maio de 2019

OS CAMINHOS DO AUTOCONHECIMENTO - Krishnamurti

"Os problemas do mundo são tão colossais e complexos que, para compreendê-los e resolvê-los, temos de estudá-los de maneira muito simples e direta: e a simplicidade não depende de circunstâncias exteriores nem de nossos preconceitos e caprichos. A solução não se encontra em conferências ou projetos, nem na substituição de velhos por novos líderes. Ela se encontra, evidentemente, no criador do problema, na origem dos malefícios, do ódio e da enorme incompreensão entre os seres humanos. A origem é o indivíduo, você e eu, não o mundo, tal como o concebemos. O mundo é uma expressão de nossas relações com os outros, não é algo separado de você e de mim. O mundo é construído pelas relações que estabelecemos entre nós.

Você e eu, portanto, somos o problema, e não o mundo, porque o mundo é a projeção de nós mesmos. Para compreendê-lo, precisamos nos compreender. Nós somos o mundo, e nossos problemas são os problemas do mundo. Nunca é demais repetir isso. Porque temos uma mentalidade indolente, pensamos que os problemas do mundo não nos dizem respeito e têm de ser resolvidos pelas Nações Unidas, ou pela substituição dos velhos líderes. Mostramos uma mentalidade muito elementar ao pensar dessa maneira, porque nós somos os responsáveis pela aterradora miséria e pelo constante perigo de guerra no mundo.

A transformação precisa começar por nós mesmos. O mais relevante é a intenção de compreendermos a nós mesmos, e não esperar que os outros se transformem. Essa obrigação é nossa. Porque, por mais insignificante que seja a vida que vivemos, se pudermos nos transformar, introduzir na existência diária um ponto de vista radicalmente diferente, então talvez venhamos a influir no mundo como um todo, porque ele é fruto das nossas relações com os outros, em escala ampliada.

A compreensão de nós mesmos não é um processo isolado. Não implica se retirar do mundo, porque não se pode viver em isolamento. 'Ser' é estar em relação. É a falta de relações corretas que gera conflitos, angústias e lutas. Por menor que seja o nosso mundo, se pudermos transformar nossas relações, essa transformação, da mesma forma que uma onda sonora, se propagará constantemente no mundo exterior. Se pudermos operar uma transformação aqui, não uma transformação superficial, porém radical, começaremos a transformar o mundo. O autoconhecimento é o começo da sabedoria e, portanto, o começo da transformação e da regeneração de valores.

Para compreendermos a nós mesmos é preciso ter a intenção de compreender, e aí reside nossa dificuldade. Embora descontentes, quase todos nós desejamos realizar uma alteração súbita; nosso descontentamento é canalizado no sentido de chegar a um certo resultado. Quando estamos descontentes procuramos, por exemplo, uma ocupação diferente. O descontentamento, ao invés de nos encher de entusiasmo e nos fazer investigar a vida e todo o seu processo, canaliza-se para algo superficial. Em consequência disso nós nos tornamos medíocres, perdendo daquele ímpeto, aquela intensidade necessária para compreender o significado pleno da existência.

O autoconhecimento não pode ser dado por outros. O indivíduo precisa conhecer a si mesmo tal como é, e não como deseja ser, pois o que ele deseja ser é apenas um ideal imaginário. Para conhecer a si mesmo, o indivíduo precisa de extraordinária vigilância por parte da mente. Tudo está sujeito à constante mudança, por isso a mente não deve ser restringida por dogmas. Se você é ganancioso ou violento, o simples fato de nutrir um ideal de não violência ou de generosidade é de pouco valor. Mas compreender que somos violentos ou gananciosos requer um percebimento extraordinário. Requer honestidade e lucidez de pensamento, ao passo que simplesmente seguir um ideal representa uma fuga que nos impede de perceber e de atuar diretamente sobre o que somos.

A compreensão do que somos, não importa como - feios, bonitos, perversos, malignos - é o começo da virtude. A virtude é essencial, porque dá liberdade. É só na virtude que se pode descobrir e viver - mas não apenas no cultivo da virtude, que leva somente à respeitabilidade, porém não traz compreensão nem liberdade.

Há diferença entre ser virtuoso de fato e o 'vir a ser' virtuoso. O ser virtuoso vem com a compreensão do que é, ao passo que o 'vir a ser' virtuoso é adiamento, ocultação do que é pelo cultivo de um ideal. Se observarmos atentamente, verificaremos que o ideal não tem essa qualidade. A virtude é essencial numa socidedade que se está desintegrando rapidamente. Para criar um novo mundo é preciso liberdade para descobrir; e para ser livre é indispensável a virtude, porque sem virtude não há libertação do medo do que se é.

Para compreendermos o processo do que se é devemos seguir cada pensamento, cada sentimento, cada ação. É dificílimo compreender o que é, porque o que é nunca é estático, está sempre em movimento. A compreensão do fato real requer vigilância, com uma mente muito atenta e veloz. Se começamos condenando o que é, ou resistindo a isso, não compreenderemos seu movimento. Para compreender alguém não posso condená-lo; devo observá-lo, estudá-lo. E devo amar o que estou estudando. Se desejamos compreender uma criança, devemos amá-la e não criticá-la. Devemos brincar com ela, observar-lhe os movimentos, as idiossincrasias, os modos de conduta. Se apenas a condenamos, não pode haver compreensão. Da mesma forma, temos que observar o que pensamos, sentimos e fazemos, momento a momento. É preciso ao mesmo tempo um espírito alerta, atento e calmo.

A maioria de nós não é criativa; somos relógios de repetição, e retemos lembranças, experiências e conclusões, nossas ou de outros. Ser criativo não significa pintar quadros ou escrever poesias e tornar-se famoso. A potência criadora é um 'estado de ser' em que a mente se aquieta, já não se focaliza em experiências, ambições ou desejos. A criação não é um estado contínuo, ela se renova a cada momento, é um movimento em que não existe o 'eu', o 'meu'; só assim pode haver compreensão de nós mesmos.

O homem pequeno quer tornar-se um grande homem, o não virtuoso quer ser virtuoso, o fraco e o obscuro anseia por poder, posição e autoridade. É essa a incessante atividade da mente, que nunca pode estar quieta para compreender o estado de criação.

Para transformar esse mundo de angústias, guerras, desemprego, fome e divisões de classes que nos rodeia, urge operar uma transformação em nós mesmos, compreendendo o processo integral do nosso pensamento e do nosso sentimento nas relações. Se pudermos compreender a nós mesmos tais como somos, de momento em momento, ganharemos uma tranquilidade que não é produto da mente. Só nesse estado pode haver criatividade e paz."

J. Krishnamurti - Os Caminhos do Autoconhecimento
Revista Sophia, Ano 12, nº 49  - p. 05/06/07
Ed, Teosófica, Brasília


O Caminho do Autoconhecimento

Imagem relacionada
"O caminho do conhecimento é o caminho da luz, e aquele que deve trilhar esta vereda deve aprender a deixar de lado todos os atributos que toldem esta luz, pois seu destino é encher-se tanto de luz até que ela possa irradiar através de si para iluminar o mundo inteiro. Desde o início, portanto, deve despir-se de tudo possa velar a luz dos olhos daqueles que, mais tarde, irá iluminar. 

O preconceito é o grande lançador de véus, o maior inimigo de todos os que procuram conhecimento, a maior barreira à iluminação. Deixe-se que o neófito, em sua busca de conhecimento, comece a estudar a si mesmo, pois somente conhecendo a si vai um dia conhecer o grande Eu; somente pelo autoconhecimento ele poderá descobrir os muitos véus em que sua longa peregrinação o envolveu; somente pelo autoconhecimento ele poderá descobrir a maneira de lançar fora tais véus. Para dentro, pois, e não para fora, deve o estudante lançar-se nesta pesquisa; tendo encontrado o Eu dentro de si, o Eu externo lhe será revelado. 

Há um caminho levando do não-eu ao Eu, do material ao espiritual, da ignorância para a iluminação; este caminho é o caminho do conhecimento; uma das extremidades está na carne, a outra, no espírito. O homem de carne deve procurar entrar na carne, enquanto sua contraparte espiritual - o homem interno - deve buscar a entrada no espírito. Encontradas as duas entradas, deve procurar o centro ao qual as duas entradas conduzem. Este centro comum é a Mansão de Luz, o lugar de iluminação, o Santo dos Santos, onde espírito e matéria são unidos pela luz. Não é um edifício, ou algum sacrário terreno, é o Templo da Luz, de onde brilha a 'verdadeira luz que ilumina cada homem no mundo'; é o vaso através do qual a Luz Única, que brilha eterna do sol espiritual, alcança a escuridão dos mundos materiais em sua caminhada em direção à iluminação. Dentro do templo há um altar, e no altar arde uma chama que acendeu quando sua alma foi formada, e arde continuamente até que um dia o próprio homem se transforme na labareda; então, como Sansão na antiguidade, ele investe com todas as forças contra os pilares do templo, que cai em ruínas ante seus pés; pois ele, que se tornou um Deus, não precisa mais de um altar para cultuar aquilo em que se tornou; assim o templo cai em ruínas, e os milhares de mortos soterrados são os inúmeros véus que ele agora aprendeu a descartar, para que a luz brilhe em plenitude sobre o mundo. 

Antes desta grande consumação, muitas vidas de estudo e pesquisa ainda há pela frente, para o neófito que anda pela trilha do conhecimento. Em suas muitas vidas, antes que a grande decisão tenha nascido, ele tem estado cercando a si mesmo com véu após véu, cada um velando mais e mais a luz que vem da chama sobre o altar de seu Eu Superior. Doravante ele deve entender-se como um desvelador, pois tal é sua missão no caminho do conhecimento. Primeiro ele deve romper os véus que lançou sobre si mesmo, e depois retirar os véus alheios, pois cada professor verdadeiro é um desvelador. O maior de todos os véus é o preconceito, e daqui em diante, em seu caminho, ele deve ser como uma criancinha, professando a mais chã ignorância, pois, possuindo nenhum conhecimento, ele não pode ter nenhum preconceito; para que, esvaziando-se, possa ser preenchido; para que, tendo uma mente aberta e desanuviada, possa oferecê-la como cálice perfeitamente translúcido, para ser enchido com a luz do conhecimento. (...)"

Geoffrey Hodson
- Sede Perfeitos
Canadian Theosophical Association