terça-feira, 12 de dezembro de 2017

França: Magnetizadores Desafiam Medicina Tratando Doentes Com As Mãos

Conheça a polêmica prática do magnetismo na França, terapia alternativa de cura com as mãos que divide opiniões mas desafia a Medicina com alguns resultados


A história da magnetizadora francesa Brigitte Grimm-Laforest é a de uma menina que, desde cedo, sabia que era diferente. “Minha família conta que, desde os quatro anos, eu queria cuidar das pessoas. Era o que eu dizia, mas não sabia como, nem o porquê. Eu queria cuidar”, explicou Brigitte à RFI em seu consultório situado no 9° distrito de Paris. “Para mim foi uma trajetória natural, lógica”, conta.

Em quatro décadas de atividade, Brigitte tem um dom, o de aliviar dores e sintomas de diversas patologias. Dom que a levou a fazer da prática sua profissão e se tornar presidente do Sindicato dos Magnetizadores da França. Um grupo seleto que conta com apenas 200 pessoas. "Difícil de entrar, mas fácil de sair", diz.

Tornar-se membro requer uma série de critérios. O futuro membro é objeto de uma investigação, um “pente fino” que envolve entrevistas com pacientes e verificação dos resultados e das práticas utilizadas, além do respeito ao código de ética do sindicato. Brigitte explica que o objetivo é lutar contra os charlatães, que, ela reconhece, são inúmeros. O sindicato é inclusive convocado com frequência pela polícia francesa, extraoficialmente, para ajudar a resolver casos de falsos curandeiros.

Por esse motivo também, obter a entrevista com a magnetizadora não foi uma tarefa das mais fáceis. Como se trata de práticas não reconhecidas cientificamente, esses terapeutas alternativos têm uma certa reticência em falar sobre sua atividade.

“Não é uma questão de fé”

Na França, os magnetizadores não têm nenhum vínculo religioso. Eles não precisam invocar almas do além e Brigitte nem mesmo sabia o que é o Espiritismo. A magnetizadora conta, aliás, que os resultados são os mesmos em um paciente totalmente cético. “Não é uma questão de fé”, diz. “Se a pessoa adere à prática, a sessão será mais fluida, mas não é uma condição para que a terapia funcione. Peço apenas ao paciente que seja “científico”. Que ele confie no que sente. Isso é que é importante.

Nas consultas, em geral, o terapeuta usa apenas as mãos, que podem ou não tocar levemente o paciente. A terapia com um magnetizador, diz, também não substitui um tratamento médico ou o uso de medicamentos. Ela é complementar.

Se não é ciência, paranormalidade ou religião, o que é então o magnetismo? “Na minha interpretação, considero que, globalmente o magnetismo é uma energia vital e transmissível. Toda pessoa viva tem acesso à energia e às suas variações. Quando alguém é amigo da gente, por exemplo, há uma transferência positiva de energia", diz. "Na minha opinião, todo mundo pode fazer magnetismo. Mas nem todo mundo que aprende música vira Mozart ou aprende a cozinhar e se transforma no Bocuse. Isso existe em todos os níveis, inclusive nesse”, compara.

“Há um corporativismo da Medicina tradicional”, diz anestesista

O anestesista francês Jean-Jacques Charbonier, que atua na UTI junto a pacientes em coma ou à beira da morte, é um dos defensores da adoção desse tipo de prática nos hospitais franceses. O médico defende uma tese polêmica: a da existência de uma consciência depois da morte.

Autor de diversos livros sobre o tema e criticado pelos colegas, ele mesmo conta ter sido convocado várias vezes pelo Conselho de Medicina francês, que no entanto nunca o expulsou da ordem. O anestesista afirma que os magnetizadores são chamados com frequência nos hospitais públicos para aliviar dores de pacientes.

Infelizmente na França esse é um assunto tabu, como é o caso de várias medicinas paralelas. Há um corporativismo do mundo da Medicina tradicional. Todas essas práticas deveriam complementar aquilo que fazemos no hospital. Constatamos a eficácia do magnetismo principalmente no setor de grandes queimados", declara. "Havia, em alguns hospitais, até mesmo listas de magnetizadores em plantão que vinham para aliviar a dor provocada pelas queimaduras. Constatamos que a terapia aliviava a dor mas também os tecidos se reconstituíam mais rapidamente”, diz.

Segundo ele, os magnetizadores são chamados “clandestinamente”. “Todas essas listas de plantão são escondidas. Infelizmente não é um tipo de Medicina que ainda é aceita na França”.

A RFI conversou com dois pacientes que passaram pela experiência, mas que preferiram não gravar entrevista. Eles afirmam que consulta foi benéfica. Dominique, 70 anos, por exemplo, sofre de lúpus, uma doença crônica autoimune que afeta o tecido conjuntivo e, no seu caso, atinge a pele. Segundo ela, suas lesões desapareceram depois das consultas. Prova de que talvez, em alguns casos, a eficácia do magnetismo, se não pode ser cientificamente comprovada, também não pode ser cientificamente negada.


segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Torne-se UM


Primeiro fique sozinho.
Primeiro comece a se divertir sozinho.
Primeiro amar a si mesmo.
Primeiro ser tão autenticamente feliz, que se ninguém vem, não importa; você está cheio, transbordando.
Se ninguém bate à sua porta, está tudo bem – Você não está em falta.
Você não está esperando por alguém para vir e bater à porta.
Você está em casa.
Se alguém vier, bom, belo.
Se ninguém vier, também é bom e belo
Em seguida, você pode passar para um relacionamento.
Agora você se move como um mestre, não como um mendigo.
Agora você se move como um imperador, não como um mendigo.
E a pessoa que viveu em sua solidão será sempre atraído para outra pessoa que também está vivendo sua solidão lindamente, porque o mesmo atrai o mesmo.
Quando dois mestres se encontram – mestres do seu ser, de sua solidão – felicidade não é apenas acrescentada: é multiplicada.
Torna-se um tremendo fenômeno de celebração.
E eles não exploram um ao outro, eles compartilham.
Eles não utilizam o outro.
Em vez disso, pelo contrário, ambos tornam-se UM e desfrutam da existência que os rodeia.

Osho

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O CAMINHO SAGRADO do AMOR e da VERDADE


"O Karma, como foi ensinado no Gita e no Yoga Vasishta, significa atos e volições que procedem de Vanasa, ou desejo. É deixado bem claro naqueles códigos de ética que nada que é feito com um puro senso de dever, nada que é empreendido com um sentimento de 'obrigação', como se diria, pode macular a natureza moral daquele que o faz, mesmo que ele esteja equivocado em sua concepção de dever e adequação. O erro, é claro, deve ser expiado com sofrimento, que deve se proporcional às consequências do erro; mas certamente não pode degradar o caráter ou macular o Jivatma (o Eu Individualizado).

É bom usarmos todos os eventos da vida como lições a serem transformadas em vantagens, e a dor causada pela separação de amigos que amamos pode ser usada assim. O que são espaço e tempo no plano do Espírito? Ilusões do cérebro, meros nadas, que adquirem aspecto de realidade pela impotência da mente, o invólucro que aprisiona o Jivatma. O sofrimento meramente nos dá um impulso novo e mais potente de vivermos completamente no Espírito. No fim, da dor virá boa vontade para todos nós, de modo que não devemos resmungar. Antes, sabendo que para os discípulos não pode acontecer nada que não seja da vontade de seus Senhores, devemos olhar para cada incidente doloroso como um passo em direção ao progresso espiritual, como um meio para aquele desenvolvimento interno que nos capacita a servi-Los, e com isso à Humanidade, de um modo melhor. 

Se apenas pudermos servi-Los, se através de todas as tormentas e conflagrações nossas Almas se voltarem para os seus Pés de Lótus, o que importam a dor e os sofrimentos que elas impõem à nossa casca temporária? Entendamos um pouco o significado interno destes sofrimentos, destas vicissitudes das circunstâncias externas - entendamos como tamanha dor suportada significa muito mau Karma esgotado, muito poder de serviço adquirido, quão boa lição aprendida - não serão estes pensamentos suficientes para nos sustentar através de qualquer quantidade destas misérias ilusórias? Quão doce é sofrer quando se sabe e se tem fé! Quão diferente da miséria do ignorante, do cético, e do descrente. Quase poderíamos desejar que todo o sofrimento e miséria do mundo fossem nossos a fim de que o restante de nossa raça pudesse ser livre e feliz. A crucificação de Jesus simboliza esta fase na mente do discípulo. Você não pensa o mesmo? Somente esteja sempre firme na fé e na devoção, e não se desvie do caminho sagrado do Amor e da Verdade. Esta é a sua parte - o resto será feito por você pelos Senhores Misericordiosos a quem você serve. Você já sabe de tudo isso, e se eu falo sobre isso é apenas para fortalecê-lo em seu conhecimento; pois amiúde esquecemos de nossas melhores lições, e em tempos de aflição o dever de um amigo é mais o de lembrar a você suas próprias palavras, antes do que introduzir novas verdades. Foi assim que Draupadi frequentemente consolou seu sábio esposo Yudhisthira, quando terrível infortúnio por um momento abalava sua usual serenidade, e assim também o próprio Vasishtha teve de ser acalmado e confortado quando assolado pela dor da morte de seus filhos. Não é verdadeiramente inexplicável o lado Maya deste mundo? (...)"

Annie Besant
A Doutrina do Coração
Ed. Teosófica, Brasília


domingo, 26 de novembro de 2017

GRATIDÃO e RESPEITO


"Para descobrir o erro não é preciso verdadeiro esforço, mas, para ver melhor, é preciso esforço contínuo. A maioria das grandes almas reforçam isso como um lembrete. Diz novamente Steiner: 'Devemos buscar em todas as coisas à nossa volta aquilo que consegue despertar nossa admiração e respeito Se eu conheço outras pessoas e critico suas fraquezas, retiro de mim o poder cognitivo superior, mas, se penetro profunda e amorosamente em suas boas qualidade, eu assimilo essa força.'

Chegamos onde estamos hoje pelas circunstâncias da vida e pelas forças ativas em nós. Este tem sido um estado semiconsciente. Se desejamos alcançar o estado superconsciente, precisamos engajar nosso eu a partir do interior, o que constitui maturidade em ação - ver e sentir a necessidade de se mover, e então buscar como fazê-lo. Infelizmente na maioria das vezes olhamos na direção de onde fomos empurrados. Este é o lado inconsciente da vida; o lado consciente está no interior. É preciso um esforço quase que constante; contudo, uma coisa é certa: a chave para a vida é compreender não apenas nós próprios e os outros, mas também o mundo em que vivemos. 

Um dos passos iniciais do yoga, dito de maneira simples, é 'cessa de fazer o mal; faz o bem'. São Paulo disse: 'Não faço as coisas boas que quero, mas faço as coisas ruins que não quero'. Isso diz respeito a todos nós, mas por quê? As reações, surgindo da mente subconsciente, formam uma grande parte de nossas vidas. É com a mente que julgamos o que está certo ou errado. Vemos o que desejamos fazer e não fazer; sendo assim, por que cometemos erros? Uma resposta, oculta na compreensão esotérica, pode ser colocada simplesmente assim: 'O corpo do desejo, ou corpo emocional, move os músculos.' Isso é verdadeiramente parte da resposta ao problema. Se não temos vontade de fazer algo e a mente quer fazê-lo, o que acontecerá? Nada. Se não estivermos alinhados com o que queremos, a coisa não acontecerá; ou, se a ação for guiada pelo medo, ela pode ser iniciada, mas não continuará.

Precisamos compreender a nós mesmos retornando ao conhecimento esotérico: 'Desejo é vontade voltada para fora. Essa é sua forma latente. Quando ativa, ela se volta para o interior.' Quando somos atraídos por algo ou por alguém, nos sentimos puxados. A vontade é quando os desejos foram compreendidos e subjugados a partir do interior. Ela então substitui o sentimento de 'não querer fazer' pela força interior do 'fazer', orientada pela moralidade, não porque é doloroso ou agradável.

Uma outra parte do problema é que tentamos compreender tudo com a nossa mente. A mente é alheia aos sentimentos. Ela pode ver comportamentos à medida que aparecem sem compreender os sentimentos que os orientaram. Nós damos muito valor às aparências - outro atributo da mente. A mente abstrata vê, ou melhor, tenta compreender as coisas a partir do interior. No entanto, deve-se notar que, embora haja apenas uma mente, a matéria mental inferior aparece na forma, enquanto a superior parece abstrata, ou sem forma. Assim a mente é dividida, para poder perceber as formas de matéria. Até agora a mente superior não é estimulada pela própria natureza do ser humano, mas pelo estudo de temas, como a matemática, a ciência ou apenas a contemplação da vida. 

Singularmente, um dos métodos mais rápidos para estimular a mente superior é sentar-se em silêncio e meditar, que á a absoluta cessação do pensamento e do sentimento. Para conseguir isso, precisamos perceber verdadeiramente o que estamos sentindo e parar de analisar esses sentimentos. Ter coração e mente trabalhando harmoniosamente juntos é verdadeiramente o próximo passo evolutivo para a humanidade - ter a mente permitindo-se estar onde o coração está sentindo, mas sem tentar nomear ou julgar. 

A vida em geral é uma série de eventos unidos pela memória e por respostas emocionais agradáveis ou dolorosas. É diferente para cada um de nós, conforme nossas experiências. Interessante também é nossa atitude com relação à dor: com compreensão, quando rememoramos experiências dolorosas, frequentemente podemos ver, às vezes muitos anos depois, que aprendemos muito, que a experiência mudou nossa vida.

Se a dor é um grande instrutor, precisamos examinar nosso relacionamento com ela, e saber por que a evitamos. Quando fugimos da dor, aumentamos o tempo que transcorre antes de obter a clareza da percepção e aprender a aceitação - que é quando a dor finalmente para e começamos a 'entender'. Se saudamos a dor com uma grande instrutora, ela se vai rapidamente e dá lugar ao insight. Isso requer alguma prática, mas nos liberta para viver nossas vidas. Então, as dificuldades da vida diminuirão. Quando permitimos que aconteça a harmonia com a vida, a luta interna quase contínua é substituída pela paz." 

Barry Bowden 
Sabedoria: o tesouro oculto 
Revista Sophia, Ano 13, nº 58 - p. 41)

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O Caminho do Aprendizado - Parte II


Como a Alma se Aproxima
do Discipulado e da Sabedoria  

 Por
 Carlos Cardoso Aveline

O Discipulado de Bennett

Os Adeptos evitam todo desperdício de energia. Eles preferem atuar anônima e silenciosamente através da consciência intuitiva do próprio aprendiz. Um exemplo clássico deste tipo de discipulado é a experiência de Robigne Mortimer Bennett (1818-1882), um livre-pensador norte-americano perseguido pelo cristianismo dogmático.

Bennett ficou preso durante alguns anos por causa das suas ideias. Ele era amigo pessoal de HPB, mas nunca chegou a acreditar muito na existência dos Mahatmas. Sobre ele, um discípulo avançado escreveu para Sinnett, a pedido de um Mahatma: 

“Também devo dizer que você reconhecerá em um certo sr. Bennett, da América do Norte, que chegará em breve a Bombaim, uma pessoa que, apesar do seu nacionalismo, que você tanto detesta, e das suas tendências excessivamente céticas em relação às religiões, é um dos nossos agentes (fato que ele desconhece) no empreendimento de levar a cabo o plano para a libertação do pensamento ocidental de credos supersticiosos.” [ “Cartas dos Mahatmas”, Carta 37, volume um, p. 180. Veja ainda uma emocionante defesa de Bennett, feita por um Mahatma na carta 42, volume um, pp. 191-192. ]

Edison, Flammarion, Tennyson, Balzac

Esse discipulado sem consciência cerebral pode ser mais numeroso que os outros, porque é o menos complicado. As informações presentes nas cartas dos Mahatmas e nas obras de HPB sugerem o processo de discipulado inconsciente no caso de vários cientistas e escritores.  Um provável  discípulo leigo inconsciente (ou com grau incerto de consciência) foi o cientista norte-americano Thomas Alva Edison, membro da ST, um amigo pessoal de HPB que um mestre qualifica como “bastante protegido” por um dos adeptos. [ “Cartas dos Mahatmas”, obra citada, volume dois, p. 138,  Carta  93B, resposta número 14. ]

O astrônomo francês Camille Flammarion está na mesma situação. A poeta inglesa Christina Rossetti (1830-1894), foi citada por um Mestre no final da Carta 42 de “Cartas dos Mahatmas”. Outro pensador que chamou atenção dos Mahatmas é o poeta inglês Alfred Tennyson. [ Veja o final da Carta 18, à p. 129, e o parágrafo final da Carta 20, à p. 138. As duas Cartas estão no volume I de “Cartas dos Mahatmas Para A.P. Sinnett”.  

Traduzo a seguir um dos seus poemas, para ilustrar o modo como a consciência cósmica está presente em sua obra. Trata-se de “O Sonhador”, o último poema escrito por Tennyson. Seus versos dizem respeito à necessidade histórica de uma nova era de paz entre os humanos:

No meio de uma noite no meio do inverno,
quando tudo estava morto com a exceção dos ventos,
Em sua cabeça ressoava uma frase da Escritura:
‘Os Humildes Herdarão a Terra.’
Até que, em sonhos, ele viu uma Voz da Terra passar e dizer, em tom de lamento:

“Estou perdendo a luz da minha juventude
E a visão que tempos atrás me conduzia
E bato de encontro a uma Verdade de Ferro
Quando me esforço por uma Idade de Ouro
E gostaria que minha raça terminasse, porque,
Repleta de mentirosos, e loucos, e patifes,
E cansada de autocratas, de rebeldes e de escravos,
Escurecida pelas dúvidas sobre uma fé que salva,
Coberta de vermelho pelas batalhas, oca com tantas sepulturas,
Eu giro, e sigo girando em torno do Sol,
Seguida pelos lamentos dos meus ventos,
E pelos gemidos das ondas do mar.”

Seria apenas o vento da noite soprando Desolação e engano
Através de um sonho sobre uma escuridão?
No entanto ele pensou estar respondendo aos lamentos dela com uma canção:

Tuas perdas te arrancam gemidos, oh Terra
De coração cansado, dolorido!
Mas tudo o que termina bem é bom.
Gira, e segue girando em torno do Sol!

Ele avança de céu em céu,
E as perdas são menores que os ganhos,
Porque tudo o que termina bem é bom.
Gira, segue girando em torno do Sol!

O Reino dos Humildes sobre a Terra
Oh vida cansada, não começou?
Porém, tudo o que termina bem é bom.
Gira, e segue girando em torno do Sol!

Porque teus lamentos se transformarão na música das esferas,
Ou tua raça desaparecerá para sempre!
Tudo aquilo que termina bem é bom.
Gira, segue girando em torno do Sol!

[ Alfred, Lord Tennyson, “Selected Poems”, Gramercy Books, Nova Iorque, EUA, 1993, 256 pp., ver pp. 96-97. ]


Não há um limite pré-determinado entre a condição de discípulo leigo inconsciente e a de um pensador que é inspirado eventualmente, ou que trabalha dentro das linhas de ação e pensamento dos Mahatmas e seus discípulos. Outro pensador inspirado era Honoré de Balzac, escritor que H.P. Blavatsky qualifica como “o ocultista inconsciente da literatura francesa”. [“A Doutrina Secreta”, comentário A do item 4 da Estância III, volume um: ver “A Doutrina Secreta”, tradução passo a passo, disponível nos Websites Associados. ]

Balzac parece ter colaborado em sua obra com uma tarefa empreendida não só por Blavatsky mas pelos próprios mestres, tanto em suas Cartas como através de vários discípulos, leigos ou não. Tratava-se de revelar o funcionamento das máscaras sociais que os cidadãos modernos usam, cascas externas reguladas por normas de cortesia, mas que ocultam sentimentos egoístas dignos do reino animal. Esse ponto foi exaustivamente trabalhado por HPB e pelos Mestres. A tarefa avançaria mais adiante com Sigmund Freud e outros pensadores da psicologia moderna.

Em uma curta biografia de Balzac, Henry Thomas e Dana Lee Thomas escreveram, depois de comparar o escritor francês com Dante:

“Ele [Balzac] foi um artista que viveu no ambiente da ciência moderna e não na atmosfera da fé medieval. Projetou fazer para o reino dos homens o que Buffon fizera para o dos animais – escrever um documento exaustivo sobre a anatomia moral comparativa da espécie humana. E por que não? Os animais tinham sido classificados e catalogados segundo os tipos. ‘Os soldados, os trabalhadores, os letrados, os estadistas, os comerciantes, os marinheiros, os poetas, os mendigos, os padres, são tipos tão diferentes uns dos outros como os lobos, os leões, os corvos, os abutres e os tubarões.’ Pois os motivos que guiam o mundo dos homens, argumentava Balzac, são as paixões de animais, especialmente a paixão do interesse próprio. ‘A polidez apenas adorna o homem e a hipocrisia o mascara … O animal persiste no homem com a diferença de que, sendo a mente do homem mais vasta que a do animal, suas necessidades e seus perigos são maiores.’ E assim [Balzac] construiu no museu da história natural do homem um panorama de esperanças, desejos, ambições, lutas, rivalidades, ódios, lisonjas e temores – um quadro exaustivo de toda a desumanidade da espécie humana…” [“Vidas de Grandes Romancistas”, de Henry Thomas e Dana Lee Thomas, Editora Globo, RJ-Porto Alegre-SP, 1954, 344 pp., ver p. 101. ]

Um Trabalho Que Avança Por Milênios

Naturalmente, Adeptos e Mestres têm acompanhado a humanidade desde o seu surgimento. O discipulado não é coisa de uma vida ou de um século. E tampouco a reencarnação se dá de modo tão rápido quanto se pensa popularmente. O intervalo entre duas vidas é bem maior do que afirmam autores fantasiosos e, na verdade, varia de mil a quatro mil anos, salvo exceções, segundo os Mahatmas. [Veja “Cartas dos Mahatmas Para A.P. Sinnett”, obra citada, vol. II, Carta 93B, metade inferior da p. 148; Vol I, Carta 62, metade inferior da p. 256; e ainda Vol II, metade superior da p. 40. ]

Na Grécia e Roma antigas, na Índia, na China, na Pérsia, no Egito e nas Américas primitivas, a presença dos Mestres e dos seus discípulos deixou marcas culturais que podem ser encontradas ainda hoje com facilidade.

A seguir, uma lista com alguns poucos exemplos de filósofos ocidentais cujo trabalho se inscreve dentro dos objetivos e da tradição geral da filosofia esotérica, e que dão elementos úteis para o aspirante ao discipulado no século 21.


Pitágoras de Samos (segunda metade do século VI a.C.),
Sócrates de Atenas (470 a.C.-399 a.C.),
Antístenes de Atenas (Entre séculos 5 e 4 a.C.),                                             
Xenofonte – historiador, escritor, 430 a.C.-355 a.C.,
Platão de Atenas – 428/427 a.C.-347 a.C.                                                 

Os Cínicos:
Diógenes de Sinope (séc. 4 a.C.)

Os Estoicos:
Zenão de Cítio (Chipre) (séc. 4 a.C. e séc. 3 a.C.),
Epicuro de Samos (341 a.C.-270 a.C.), fundou o “Jardim” em Atenas, em 307-306 a.C., a primeira grande escola do período helenístico. Considerado “um teosofista” por Helena Blavatsky.

Os Ecléticos:
Marco Túlio Cícero (106 a.C.-43 a.C.).

Os Neoestoicos:
Pensadores cujos escritos (ou transcrições de palestras) têm valor admirável para um aspirante ao discipulado:
Sêneca (4 a.C.-65 d.C.),
Musônio Rufo (28 d.C.-101 d.C.),
Epicteto (55 d.C.-135 d.C.),
Marco Aurélio (121-180 d.C.).

Os Neoplatônicos (Neopitagóricos):
Amônio Sacas, de Alexandria (entre séculos 2 e 3 d.C.),
Plotino de Licópolis (205-270 d.C.),
Porfírio de Tiro (233/234 d.C.-305 d.C.),
Jâmblico de Cálcides (séc. 3 e 4 d.C.),
Plutarco de Atenas (morreu em 431-432 d.C.),
Hierocles de Alexandria (século 5 d.C.),
Proclo,  Hipátia, e outros.

Elos de Luz em Uma Corrente Ilimitada

A idade média, é, em geral, uma era de obscurecimento. E isso apesar da presença de figuras marcantes como São Francisco de Assis, Tomás de Kempis (autor de A Imitação de Cristo), Roger Bacon e outros místicos cristãos importantes. Roger Bacon antecipou descobertas científicas fundamentais. 

Nicolau de Cusa (1401-1464) foi um neoplatônico.

A partir do século 16, centenas de pessoas destacaram-se na luta contra a obscuridade. Entre elas, Martin Lutero, o líder da Reforma, Thomas More (autor de A Utopia), Erasmo de Rotterdam, e outros, entre os quais estão os portugueses Damião de Góis e Pedro Nunes. Mencionar alguns poucos nomes aqui serve como exemplo e ilustração de um contexto maior.  

Os Mahatmas jamais se limitaram a trabalhar através deste ou daquele pequeno grupo de pessoas. As instituições “esotéricas” que desenvolvem um sentimento de privilégio ou de exclusividade em sua relação com os Imortais ou com qualquer fonte de sabedoria na verdade perdem contato com a fonte de inspiração. A luz da verdade ilumina a todos, assim como a luz do sol. 

São João da Cruz, Teresa de Ávila e Miguel de Molinos pertencem ao século 17. Um nome significativo é Giordano Bruno, filósofo morto pelo Vaticano em 17 de fevereiro de 1600. O filósofo e matemático alemão Gottfried Leibniz (1646-1716) escreveu obras importantes na linha de trabalho dos Mahatmas, assim como o filósofo místico Jacob Boheme (1575-1624), também alemão. Já o filósofo platônico inglês Henry More, que morreu fisicamente em 1687, existia em um estado pós-morte muito especial em plena segunda metade do século 19. Segundo Henry Olcott revela em seu Diário, ele estava instalado em sua biblioteca, trabalhando, e ajudou Helena Blavatsky a escrever certas passagens de “Ísis Sem Véu”. [ Veja “Old Diary Leaves”, o diário de Henry Olcott, volume um (first series), editado por TPH-Adyar, Índia, 1974, pp. 238-243. ]

Paracelso (1493-1541), alquimista que ajudou a criar os conceitos e métodos básicos da medicina moderna, é um exemplo notável de ocultista. Há indícios de uma identidade muito profunda entre a alma de Helena Blavatsky e a dele. [Veja em nossos websites o artigo “Paracelso e o Livro da Natureza”. Examine também “Old Diary Leaves”, de Henry Olcott, volume um (first series), p. 240.]  

Considera-se, em círculos esotéricos, que as obras publicadas sob o nome de William Shakespeare – escritas no final do século 16 e início do século 17 – foram escritas em verdade por Francis Bacon (1561-1626), ocultista avançado e criador do método científico experimental. As peças teatrais publicadas em nome de Shakespeare possuem importante valor oculto, o que pode ser verificado facilmente lendo-as ou vendo os filmes baseados nelas. Elas examinam em profundidade o drama de luz e sombra que se desdobra na alma humana. Manly P. Hall e outros estudiosos de destaque levantaram indícios numerosos de que Francis Bacon foi o verdadeiro autor das obras e poemas atribuídos a Shakespeare. A escritora inglesa Jean Overton Fuller escreveu uma documentada biografia de Francis Bacon em que aborda esse tema. [ “Sir Francis Bacon, a Biography”, de Jean Overton Fuller, George Mann Books, Kent, Grã-Bretanha, 1994, 384 pp. Veja também o capítulo “Bacon, Shakespeare and the Rosicruacians” da obra “The Secret Teachings of All Ages”, de Manly P. Hall, Philosophical Research Society, 1994, Califórnia, EUA.]

As ciências exatas, assim como outras áreas do conhecimento humano, são acompanhadas e assistidas pelos Mahatmas em seu progresso. Além do já citado Bacon, há Isaac Newton, Johannes Kepler e muitos outros. Os exemplos nessa área são tão numerosos como na área religiosa ou na área filosófica. 

O grande místico que apareceu na Europa do século 18 usando o nome de Conde Alessandro Cagliostro pode ter sido bem mais do que um discípulo leigo. Sua vida e personalidade têm notáveis coincidências com as de Helena Blavatsky. Discípulos avançados podem reencarnar rapidamente porque experimentam durante a vida física uma consciência equivalente à do Devachan – o descanso celestial que é normalmente necessário entre uma reencarnação e outra. [Veja em nossos websites o artigo “O Mistério de Alessandro Cagliostro”.]

Um grande iniciado, mas ainda não um Adepto ou mestre de sabedoria, apareceu na mesma época que Cagliostro nas cortes europeias usando o nome de Conde de Saint-Germain. Porém, não há indícios de legitimidade nas versões que circulam afirmando que Saint-Germain seria um Adepto responsável por cerimônias ritualísticas, e que escreveria ou inspiraria a redação de livros e a realização de palestras através de médiuns e “canalizadores”. Não faz sentido, tampouco, pensar que um Adepto se daria a conhecer a discípulos usando o mesmo nome com que se tornou conhecido na encarnação anterior. Em certos círculos, a verdade sobre os Adeptos está recoberta por uma grossa camada de fantasias e clarividências viciadas pelo desejo e pelas expectativas de cada clarividente.

No século 18, os pensadores franceses Voltaire, Denis Diderot e Jean-Jaques Rousseau estiveram entre os que deram contribuições valiosas para o “plano para a libertação do pensamento ocidental de credos supersticiosos”, elaborado pelos Mahatmas e mencionado acima, em uma citação relativa a Bennett.

A obra de Francis Hutcheson, influenciada pela filosofia ocidental clássica e especialmente por Cícero, tem paralelos significativos com Raja Ioga.

A proclamação universal dos direitos do homem, feita pela revolução francesa de 1789, é o mais belo manifesto pela fraternidade universal que se conhece até hoje, e foi inspirado no pensamento de Jean-Jacques Rousseau e na independência norte-americana de 1776. Aliás, entre os líderes e pensadores da independência norte-americana parecem não haver faltado discípulos leigos. Infelizmente Rousseau popularizou a ideia de que o povo simples e trabalhador tem uma bondade profunda e estável, bastando tirar o poder das elites e voltar à simplicidade primordial para que a humanidade supere a ignorância espiritual. Leo Tolstoi, admirado por Helena Blavatsky e provável discípulo leigo, compartilhou o mesmo erro e idealizou excessivamente o camponês russo, por contraste com a elite russa que ele desprezava. A verdade é que o atual mau uso do conhecimento nas nações que sofrem da doença da injustiça social não é motivo para jogar fora o conhecimento, ou para pensar que os pobres têm pureza de alma e os ricos estão coletivamente condenados à maldade. Cabe, isso sim, usar o conhecimento de modo correto: a luta entre a ignorância e a bondade ocorre em cada coração humano, sem trégua. 

Um exemplo de trabalho espiritual através da literatura é dado pelo escritor russo Fiódor Dostoievsky. Apesar do tom lúgubre de vários dos seus livros, ele chamou atenção dos Mahatmas pelo menos em alguns momentos, já perto do final da sua vida.

Em um longo trecho da obra Os Irmãos Karamázovi, intitulado O Grande Inquisidor, Dostoievisky descreve uma suposta volta de Jesus Cristo à Terra, maravilhando o povo com seus milagres até ser preso e encerrado em uma cela das prisões da Inquisição do Vaticano. Segue-se então um diálogo franco entre o Mestre e o Inquisidor. Em uma das suas cartas, um Mestre revela que sugeriu a Blavatsky que publicasse o texto em The Theosophist, a revista que ela editava. O Adepto escreveu:

“A sugestão de publicar O Grande Inquisidor é minha; porque seu autor, sobre quem já pesava a mão da Morte enquanto escrevia, deu a descrição mais convincente e mais verídica jamais escrita da Sociedade de Jesus. Está contida ali uma grande lição para muitos, e mesmo você poderá tirar proveito dela.” [ “Cartas dos Mahatmas”, obra citada, volume um, Carta 21, p. 142. Veja também “Collected Writings”, HPB, TPH-Índia, volume III, pp. 324-325.  Para ler “O Grande Inquisidor” no romance “Os Irmãos Karamázovi”, veja a seção V do livro V da obra. ]

A Sociedade ou Companhia de Jesus é a corporação dos jesuítas, que na época funcionava como uma sociedade secreta e um serviço de espionagem com práticas autoritárias da pior espécie.

O romancista francês Victor Hugo (1802-1885), uma das maiores expressões do romantismo, também navegou nas amplas águas do discipulado leigo.

A obra de Hugo expressa um certo anticlericalismo, um bravo combate ao dogmatismo religioso, uma postura democrática e uma valente defesa dos direitos humanos. Articulando o que havia de melhor na alma francesa, ele exaltava a fraternidade universal. Veja-se, por exemplo, a obra “Os Trabalhadores do Mar”. Já em seu livro intitulado “William Shakespeare”, Victor Hugo discute não só o escritor inglês mas todo o trabalho da literatura de inspiração, e deixa clara sua identidade com o caminho da Raja Ioga e seu compromisso com o futuro humano:

“Pensamento é poder. Todo poder é dever. No século em que estamos, deve esse poder entrar em repouso? Deve esse poder fechar os olhos? O momento é chegado para a arte se desarmar? Menos que nunca. A caravana humana, graças a 1789, atingiu um ponto elevado, e sendo o horizonte mais vasto, a arte tem mais a fazer. Eis tudo. A todo alargamento de horizonte corresponde um alargamento de consciência. Ainda não alcançamos o objetivo. A concórdia condensada em felicidade, a civilização resumida em harmonia. Isto ainda está longe.” [William Shakespeare”, obra de Victor Hugo, Ed. Campanário, Londrina, PR, edição do ano 2000, 330 pp., ver p.250.]

A referência acima a “1789” diz respeito à Revolução Francesa de 1789, que fez a proclamação universal dos direitos do homem, e pouco depois terminou em um banho de sangue, devido à premissa falsa de que “o ser humano é bom e para que seja feliz basta eliminar a elite social maldosa”.

Ao mesmo tempo que sonhava com a justiça social, Victor Hugo estava interessado no despertar da alma imortal. Ele escreveu:

“No poeta e no artista há o infinito. É esse ingrediente, o infinito, que dá a essa espécie de gênio a grandeza irredutível. Essa quantidade de infinito, que há na arte, é exterior ao progresso. Pode ter, e tem, para com o progresso, deveres; mas não depende dele. Não depende de nenhum dos aperfeiçoamentos do futuro, de nenhuma transformação da língua, de nenhuma morte ou de nenhum nascimento de idioma. Tem em si o incomensurável e o inumerável; não pode ser subjugada por nenhuma concorrência; é tão pura, tão completa, tão sideral, tão divina em plena barbárie quanto em plena civilização. Ela é o Belo, diverso segundo os gênios, mas sempre igual a si mesmo. Supremo. É essa a lei, pouco conhecida, da arte.” [“William Shakespeare”, obra citada, p. 86.]

O Diário de Leon Tolstoi

O escritor russo Leon Tolstoi, autor de Guerra e Paz, foi intensamente defendido por HPB. Místico autêntico, ele lutou contra o dogmatismo, a hipocrisia, a burocratização eclesiástica e o controle ritualístico do sentimento cristão. Teve pelo menos um texto, sobre a arte de viver, publicado por Blavatsky em uma das suas revistas.

Apesar de suas limitações, os sintomas de discipulado leigo são fortes. Sua vida e sua obra foram dedicadas à expansão da consciência humana, o que incluía o combate a todas as formas de dogma religioso e de autoritarismo. Por suas ideias “hereges”, foi excomungado. Deixou livros admiráveis do ponto de vista oculto. E Tolstoi tinha uma prática pessoal que é seguida por aprendizes há muitos séculos. Ele dedicava uma parte do dia ao autoexame e à meditação, e registrava no papel o resultado da sua luta diária consigo mesmo. Na bem documentada biografia “Tolstoy”, de Henri Troyat, vemos que já com idade avançada e perto do final da vida, o pensador ainda mantinha um esforço intenso de autoaperfeiçoamento. Troyat escreve:

“Ao contrário de algumas pessoas idosas, para quem a proximidade da morte traz mais indulgência para consigo mesmas, sua necessidade de submeter-se a um código moral severo era mais forte que nunca. O tempo não havia enfraquecido seu amor pela perfeição. Todas as noites, infalivelmente, ele se fechava em seu gabinete, abria um caderno e, sob a luz de uma única vela, sem óculos, com a mão firme e o nariz enterrado na página, registrava suas boas resoluções, seus fracassos, seus ressentimentos, suas fraquezas e vitórias, e estabelecia regras de conduta como ele fazia quando tinha 20 anos de idade. Além desse diário, ele tinha um caderno que nunca saía do seu bolso e em que anotava impressões e pensamentos a qualquer momento. Frequentemente, as notas desse caderno eram ampliadas no diário. Tudo que ele lia, via e ouvia era motivo de avaliação.” [“Tolstoy”, de Henri Troyat, Doubleday & Company, Inc., Nova Iorque, EUA, 1967, 789 pp., ver pp. 584-585.]

Os exemplos de criadores misticamente inspirados são virtualmente inumeráveis, na poesia, nas artes, na filosofia e na ciência. Em muitos casos, obras inspiradas cumpriram seu papel e caíram em completo esquecimento.

Um exemplo disso é o romance oculto “Mr. Isaacs”, de Francis Marion Crawford. Um dos personagens do romance, Ram Lal, é inspirado em um Mahatma. Ao ser publicada em 1882, a obra recebeu comentários positivos tanto de Helena Blavatsky como do Mestre. Hoje, muito poucos dão atenção a essa obra nunca reeditada. [“Mr. Isaacs, a Tale of Modern India”, de Francis Marion Crawford, publicado em Londres em 1882 por Macmillan and Co., 316 pp. Helena Blavatsky comenta a obra em “Collected Writings”, HPB, TPH/India, volume IV, p. 640. O Mestre escreve sobre o romance no último parágrafo da Carta 102, “Cartas dos Mahatmas Para A.P. Sinnett”.]   

Há indicações irrefutáveis no sentido de que o pensador francês Eliphas Levi (1810-1875) era um discípulo leigo. Mas não se sabe até que ponto ele foi perfeitamente consciente desse fato ou dos processos específicos de inspiração.

A obra de Eliphas tem diversos pontos em comum com os escritos de HPB, inclusive em sua linguagem e estrutura. Seu verdadeiro nome era Louis Constant. HPB recebeu ordens de divulgar alguns dos manuscritos inéditos de Eliphas Levi nas páginas da revista que ela editava, “The Theosophist”. Além disso, um Mestre escreveu notas de pé de página relativamente numerosas no livro “The Paradoxes of the Highest Science”, de Eliphas Levi. [Na edição brasileira, “Os Paradoxos da Ciência Oculta”.]

O filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), que foi inspirado na sabedoria indiana, é mencionado no parágrafo final da Carta 65, em Cartas dos Mahatmas, e parece ser outro exemplo de pensador cujas ideias se inscrevem no contexto do trabalho dos Mestres.

Benedictus de Spinoza (1632-1677) – citado na polêmica Carta 88, sobre Deus – elaborou uma filosofia que coincide notavelmente com as ideias dos Mahatmas. Por sua posição diante da questão da existência ou não de Deus, uma posição essencialmente idêntica e só aparentemente diferente da defendida pelos Mestres, Spinoza foi duramente perseguido mesmo na liberal Holanda da época.

Já no século 20, o físico Albert Einstein foi leitor de “A Doutrina Secreta” e sua visão da vida no cosmo se harmoniza perfeitamente com a filosofia esotérica.

Sigmund Freud escreveu diversos ensaios sobre psicanálise aprofundando as linhas de pensamento presentes nas Cartas 30, 88 e 90 de “Cartas dos Mahatmas Para A. P. Sinnett”, e as Cartas 43 (primeira série) e 82 (segunda série), de “Cartas dos Mestres de Sabedoria”. [Veja, a respeito, o capítulo 11 do livro “Três Caminhos Para a Paz Interior”, Carlos Cardoso Aveline, Ed. Teosófica, 2002, 191 pp.]

Toda a parte 7 da extraordinária obra “Helena Blavatsky”, de Sylvia Cranston, revela o sutil mas gigantesco impacto positivo que o trabalho de HPB e dos Mestres, realizado no final do século 19, teve, sobre a arte, a ciência, a cultura e o rumo da história humana no século 20. [A obra de Cranston foi publicada no Brasil pela Editora Teosófica, Brasília. “Sylvia Cranston” era pseudônimo de uma teosofista associada da Loja Unida de Teosofistas, LUT.]

Tal impacto luminoso faz parte de um empreendimento de milhares de anos, pacientemente promovido pelo esforço de inúmeras almas nascidas nas mais diferentes culturas. Esse processo vem provocando um gradual despertar espiritual que prosseguirá vitoriosamente no século 21 – e ganhará ainda mais impulso e amplitude à medida que o tempo passar.

Discípulos Leigos Não São Poucos

A existência de discípulos leigos inconscientes – almas que são observadas e ajudadas pelos Mahatmas sem que saibam sequer da existência deles – demonstra que o verdadeiro discipulado pouco ou nada tem a ver com algum sistema de crenças. O discipulado depende, isso sim, da pureza de coração do aprendiz. Depende da sua inteligência espiritual, da nobreza das suas intenções mais internas e do altruísmo do seu projeto de vida, não no plano externo, mas lá no âmago do seu coração, que é o que entra no campo de observação dos Mahatmas e dos seus discípulos mais avançados.   

Por isso há pessoas que são discípulos e não sabem disso, e ao mesmo tempo há outros indivíduos que sabem da existência dos Mestres, desenvolvem uma “vaidade espiritual” e se consideram discípulos, mas não o são. A vida é cheia de contrastes. Ter conhecimento sobre o caminho oculto e o discipulado é algo que ajuda alguns e atrapalha outros. Nessa questão, tudo depende do discernimento, do bom senso e da pureza de intenções. 

Um Processo Gradual

Estudando a documentação disponível sobre o discipulado – e considerando que a evolução do aprendiz se dá ao longo de várias vidas – é possível observar que o processo de inspiração do aprendiz por parte de um Adepto se desdobra lentamente. Uma regra nesse processo de muitas vidas é que os fatos, em sua substância, são sempre maiores e mais sólidos do que a consciência cerebral que se obtém deles.

Um Mestre observa a alma do aprendiz muito tempo antes de inspirá-la ativamente. Inspira-a muito tempo antes de deixar sentir sua presença sutil. Deixa sentir sua presença sutil muito tempo antes de deixar-se ouvir. Deixa-se ouvir antes de deixar-se ver, e deixa-se ver um pouco antes de encontrar o aprendiz no plano físico. Porém, antes de tudo isso, o aprendiz deve aprender a ouvir seu próprio coração.

Após 1900, os discípulos leigos – isto é, os estudantes sérios da Sabedoria que estão dedicados ao progresso da humanidade – têm possibilidades razoáveis de obter acesso aos primeiros estágios dessa gradação, e isso deveria ser mais do que suficiente para polarizar os seus esforços na busca da Verdade.

Um desses estágios está indicado com clareza neste aforismo de “A Voz do Silêncio”, de H. P. Blavatsky:

“Silencia os teus pensamentos e fixa toda tua atenção em teu Mestre, que ainda não vês, mas sentes.”

Reproduzo alguns outros aforismos, além desse específico, para dar uma ideia do contexto em que ele ocorre:

“Há uma única estrada para o Caminho; só no seu final a Voz do Silêncio pode ser ouvida. A escada pela qual o candidato sobe é formada por degraus de sofrimento e dor, e estes só podem ser silenciados pela voz da virtude. Ai de ti, portanto, discípulo, se houver um só vício que ainda não abandonaste; porque então a escada cederá e te derrubará. O pé desta escada se apóia na lama profunda dos teus pecados e falhas, e, antes que tu possas tentar atravessar este amplo abismo de matéria, tens que lavar os teus pés nas Águas da Renúncia. Cuida para não pôr um pé ainda sujo no primeiro degrau da escada. Ai daquele que ousa sujar um degrau com pés enlameados. O barro mau e pegajoso seca, se torna resistente, e então gruda os seus pés naquele ponto. E, assim como um pássaro preso pela isca do caçador astuto, ele fica impossibilitado de obter mais progresso. Os seus vícios tomam forma e o arrastam para baixo. Seus pecados erguem suas vozes como a risada e o soluço do chacal depois que o sol se pôs. Os seus pensamentos se tornam um exército e o levam para longe como um escravo e um prisioneiro.

Mata teus desejos, Lanu, torna teus vícios impotentes, antes que seja dado o primeiro passo da viagem solene.

Estrangula os teus pecados e torna-os mudos para sempre, antes de erguer um pé para subir pela escada.

Silencia os teus pensamentos e fixa toda tua atenção em teu Mestre, que ainda não vês, mas sentes.

Funde os teus sentidos em um só sentido, se queres estar seguro contra o inimigo. É por este sentido apenas – que está escondido dentro do vazio do teu cérebro – que o caminho íngreme até o teu Mestre pode ser revelado diante dos teus olhos turvos.” [“A Voz do Silêncio”, Helena P. Blavatsky, edição dos nossos Websites Associados, Fragmento I. Na edição da Ed. Pensamento, SP, aforismos 69-73, pp. 54-55.]

“A Voz do Silêncio”, de HPB, e “Luz no Caminho”, de Mabel Collins, são duas obras fundamentais para o estudo do discipulado. Os dois livros são, na verdade, transcrições de fragmentos do “Livro dos Preceitos de Ouro”, “uma das obras que são colocadas nas mãos dos estudantes místicos do Oriente”, segundo HPB escreveu no prefácio de “A Voz do Silêncio”. Em seguida, ela explica que o “Livro dos Preceitos de Ouro” é matéria de estudo dos alunos das Escolas Esotéricas cujos centros estão situados, geograficamente, além dos Himalaias. Naturalmente, essas escolas inspiram pessoas no mundo todo. O fato de que temos ao nosso alcance essas duas obras com fragmentos do “Livro dos Preceitos de Ouro” é uma oportunidade para o estudante atento. 

Mente Aberta, Esforço Próprio

Nos três volumes publicados com Cartas recebidas de Adeptos, temos indicações preciosas sobre a teoria e a prática do discipulado em suas diversas variantes leigas e regulares. Mas as informações estão “desarrumadas”, como se fossem cartas de um baralho, colocadas fora de sequência. Isso faz com que a pesquisa do estudante tenha mais valor. Vejamos um dos trechos mais ricos em informações. Lembrando que os Adeptos frequentemente se referem uns aos outros como “Irmãos”, vejamos o que um Mestre escreve sobre o discipulado:

“Na Ciência Oculta os segredos não podem ser transmitidos subitamente, mediante uma comunicação escrita, nem mesmo oral. Se fosse assim, tudo o que os ‘Irmãos’ teriam que fazer seria publicar um Manual de Instruções que poderia ser ensinado nas escolas, ao lado da gramática. É um erro comum das pessoas acreditarem que nós nos envolvemos, e envolvemos os nossos poderes, em mistério por vontade nossa; que desejamos manter nosso conhecimento para nós mesmos, e que por nossa própria vontade nos recusamos a transmiti-lo (…). A verdade é que, até que o neófito atinja a condição necessária para aquele grau de Iluminação para o qual ele está qualificado e apto, a maior parte dos segredos, se não todos eles, é incomunicável. A iluminação deve vir de dentro. Até lá, nenhum truque de encantamento ou jogo de aparências, nem palestras ou discussões metafísicas, e tampouco penitências autoimpostas, podem dar esta iluminação. Todos estes são apenas meios para um fim, e a única coisa que podemos fazer é dirigir o uso destes meios (…). E há milhares de anos que isto não é segredo. Jejum, meditação, castidade em pensamento, palavra e ação; silêncio durante certos períodos de tempo para permitir que a própria natureza fale a quem se aproxime dela em busca de informação; domínio das paixões e impulsos animais; completa ausência de egoísmo nas intenções, e o uso de certo incenso (…) têm sido apontados como instrumentos desde a época de Platão e Jâmblico, e desde os tempos ainda mais remotos de nossos Rishis hindus. A maneira como tudo isso deve ser posto em prática de modo que seja adequado para cada temperamento, é, naturalmente, tema de experimentação da própria pessoa e da cuidadosa observação de seu tutor ou guru. Isso é de fato uma parte do seu aprendizado, e seu guru ou iniciador só pode ajudá-lo com a sua experiência e força de vontade, mas não pode fazer nada mais que isso, até a última e suprema iniciação.” [Veja “Cartas dos Mahatmas Para A. P. Sinnett”, Carta 20, vol. I, pp. 134-135.]

O Mahatma destaca o caráter experimental da caminhada. Não existe uma receita mecânica de comportamento válida para todas as pessoas, momentos e situações. Não há um caminho pré-fabricado. O caminho se faz ao andar. O estudante deve avançar por mérito próprio, com mente aberta e com um espírito de pesquisador, examinando o terreno em que avança. A ajuda que pode receber é importante mas não é suficiente. E ele não deve esperar por ela. A autonomia do aprendiz é o elemento mais importante da autotransformação. Os ingredientes da autotransformação são colocados diante dele pelo ensinamento esotérico, mas só ele mesmo pode determinar, a cada dia, como fará uso e como combinará todos esses fatores. 

Cada nova porção de conhecimento – cada parágrafo de leitura inspiradora – traz para nossa vida um teste, e levanta a questão: “Será que sou capaz de tirar proveito real, ao menos em parte, do ensinamento que estou contemplando? Serei capaz de neutralizar ou afastar da minha vida, da maneira mais adequada possível, as influências cármicas que me impedem de estar crescentemente à altura desse ensinamento?”

O Orgulho “Espiritual”

Desde o início, um dos problemas a serem evitados pelo estudante é o surgimento do orgulho “espiritual”, ou a impressão de que somos seres “muito especiais”, que merecem o reconhecimento dos outros ou as homenagens do mundo externo. A humildade interior é uma garantia do estudante, e ela acompanha a verdadeira autoestima. A vaidade, de fato, é uma tentativa fracassada de substituir a autoestima legítima por um produto artificial, a admiração dos outros.

Os Testes Consolidam o Progresso

 A vida, com suas situações cotidianas, se encarrega de testar não só a humildade, mas a coragem, o bom senso, a perseverança, a pureza de intenções, o vigor intelectual, a tolerância e a flexibilidade mental do aprendiz. Os testes da vida são essenciais porque tornam a nossa caminhada mais verdadeira. É graças a eles que construímos, gradualmente, uma coerência pessoal. A dinâmica desse processo probatório foi descrita da seguinte maneira por um Mahatma, quando ele abordou, em uma carta, as condições do discipulado nos tempos modernos:

“O aspirante é agora atacado inteiramente no lado psicológico da sua natureza. O processo de testes – na Europa e na Índia – é o da Raja Ioga, e o seu resultado é, como tem sido explicado frequentemente, o desenvolvimento de todos os germes, bons e maus, que há nele e em seu temperamento. A regra é inflexível, e ninguém escapa, quer ele apenas escreva uma carta para nós ou formule, na privacidade do seu coração, um forte desejo de comunicação e conhecimento ocultos. Assim como a chuva não pode fazer frutificar a rocha, tampouco o ensinamento oculto surte efeito sobre a mente que não é receptiva; e assim como a água aumenta o calor da cal cáustica, também o ensinamento coloca em impetuosa ação todas as insuspeitadas potencialidades latentes no aspirante.” [“Cartas dos Mahatmas Para A. P. Sinnett”, Carta 136, vol. II, p. 316.]

No trecho acima, o Mestre afirma mais uma vez que, quando o pensamento de um buscador da Verdade se eleva, ele entra facilmente no campo de observação dos Adeptos. Em alguns casos, basta “formular, na privacidade do seu coração, um forte desejo de comunicação e conhecimento ocultos”. Fica subentendido, no entanto, que esse desejo não é egocêntrico.

O aspirante é testado inteiramente no lado psicológico da sua natureza, ao longo das linhas da Raja Ioga. E o que significa Raja Ioga? Essa é a ioga do autoconhecimento, do autocontrole, e do conhecimento do eu superior por parte do eu inferior. A tarefa do aprendiz, então, é conhecer e controlar gradualmente todas as dinâmicas do seu pensamento, das suas emoções e suas ações. Em outra carta, o mesmo Mahatma esclarece o desafio e demonstra, de um jeito claro como água pura, o processo pelo qual cada um de nós cria o seu próprio destino:

“… Cada pensamento do homem, ao ser produzido, passa ao mundo interno e se torna uma entidade ativa associando-se – amalgamando-se, poderíamos dizer – com um elemental, isto é, com uma das forças semi-inteligentes dos reinos. Ele sobrevive como inteligência ativa – uma criatura gerada pela mente – por um período mais curto ou mais longo, proporcionalmente à intensidade da ação cerebral que o gerou. Desse modo um bom pensamento é perpetuado como força ativa e benéfica, um mau pensamento como demônio maléfico. Assim, o homem está constantemente ocupando sua corrente no espaço com seu próprio mundo, um mundo povoado com a prole de suas fantasias, desejos, impulsos e paixões; uma corrente que reage sobre qualquer organização sensível ou nervosa que entre em contato com ele na proporção da sua intensidade dinâmica. A isto os budistas chamam de ‘Skandha’. Os hindus chamam de ‘Carma’. O adepto produz essas formas conscientemente; os outros homens as atiram fora inconscientemente.” [“Cartas dos Mahatmas Para A.P. Sinnett”, obra citada, volume II, Anexo I, p. 343.]

Um Adepto produz todos seus pensamentos com plena consciência dos efeitos que eles causarão. Um aprendiz, seja qual for seu estágio de desenvolvimento, pode produzir gradualmente uma parcela cada vez maior e melhor dos seus pensamentos de modo correto, considerando-se o seu estágio. Ele passa a produzir pensamentos que apontam na direção correta, e assim evita, dentro das suas possibilidades, a formação de pensamentos em direção incorreta.

Elementos Para Um Esquema de Trabalho

Quando decidimos assumir conscientemente a autoria dos nossos pensamentos, damos um passo prático importante para diminuir a distância entre nós e os Adeptos. Há muitos e diferentes fatores úteis para alcançar esse objetivo. Recomenda-se combinar diferentes práticas e exercícios, de uma maneira adequada para nosso temperamento e para as condições reais da nossa vida no momento atual. Com o tempo, podemos tratar de melhorar nosso desempenho, usando de paciência, talento e criatividade. Eis alguns fatores importantes: 

*O estudo de textos de filosofia esotérica é um exercício que ensina a pensar corretamente e dominar o processo de pensamento. Sua prática, individual e em grupo, eleva a consciência do estudante.

*Estudar lenta e meditativamente textos teosóficos clássicos, durante 20 a 40 minutos diários, tomando notas em um caderno especialmente destinado a isso e relacionando as ideias examinadas com a vida diária.

*O uso de certos mantras, em português ou sânscrito, mentalmente ou com sons físicos, em diferentes momentos durante o dia. O mantra une e alinha os padrões vibratórios desde o nível mais elevado até o plano físico. A repetição meditativa de certas frases e pensamentos inspiradores tem o mesmo efeito de autodisciplina e autopurificação, e serve para renovar as energias acumuladas no subconsciente.  

*A prática de alimentação correta, em quantidades moderadas. Abstenção de carne e bebidas alcoólicas. 

*Ginástica moderada, caminhadas, natação, Tai chi chuan.

*A prática da sinceridade em todos os momentos da vida. A veracidade não significa dizer a qualquer pessoa a primeira coisa que vem à cabeça, mas consiste em ser fundamentalmente sincero com os outros como decorrência do fato de que escolhemos ser sinceros com nós mesmos. 

*A decisão de ser um centro de paz e de bom senso onde quer que se encontre. O estudante poderá ser obrigado a desafiar e denunciar mecanismos de falsidade e mentira, mas não aceitará envolver-se em conflitos permanentes ou em qualquer sistema estável de rancor recíproco. Essa é uma condição indispensável: manter a cada dia limpo e brilhante o centro de paz em seu coração.

*A produção de relações humanas corretas, pautadas por sinceridade, equilíbrio e respeito.

*Uma vida afetiva sóbria, construída sobre bases saudáveis. Essa prática beneficia também as pessoas com quem o aprendiz se relaciona, em casa ou no trabalho. Porém, nem sempre é fácil tornar mais verdadeiras as bases dos relacionamentos. A tarefa requer total coragem e máxima paciência.

*Harmonização da vida profissional com a vida espiritual, simplificando os nossos envolvimentos com o mundo externo. Gastar menos dinheiro pode dar-nos mais liberdade interior.

*A prática do trabalho altruísta. Não se trata apenas de fazer tarefas que promovam o bem comum. Significa cumprir nossos deveres com impessoalidade e desapego em todas as áreas da vida.

*A prática da auto-observação, pela qual identificamos e corrigimos nossos erros e defeitos, mas também percebemos o desenvolvimento do potencial divino em nós.

Não é necessário pretender alcançar nota máxima em cada uma dessas práticas. Esses, na verdade, são apenas alguns exemplos. Cada estudante avançará com mais facilidade em alguns aspectos e avançará menos em outros. O importante é que haja um progresso ao longo do tempo; que esse progresso seja sustentável; e que o grau de contentamento do estudante consigo mesmo e com a vida em geral aumente, à medida que percorre o caminho. 

Um dos erros cometidos por almas inexperientes é ter um grande entusiasmo pelo caminho espiritual durante um ou dois anos e depois decepcionar-se por falta de resultados espetaculares. Mais sensato é avançar moderadamente até o final de uma vida que seja útil aos seus semelhantes – e que, se possível, seja longa.


O Caminho do Aprendizado - Parte I


Como a Alma se Aproxima
do Discipulado e da Sabedoria

Por
Carlos Cardoso Aveline


“… A meta do filantropo deve ser a iluminação espiritual dos seus semelhantes, e seja quem for que trabalhe com altruísmo para esse objetivo coloca-se necessariamente em contato com nossos chelas e conosco.”
 
(Um Mestre dos Himalaias)


O Caminho Estreito

As ideias governam o mundo, e a filósofa russa Helena Blavatsky (1831-1891) trouxe para nossa cultura algumas noções básicas e fundamentais, cuja influência duradoura vem mudando gradualmente o rumo e a substância da sociedade moderna.

Uma dessas ideias é a noção de que existe uma lei de fraternidade universal, sem fronteiras, que une todos os seres. As linhas de evolução de todos avançam unidas eternamente pela lei do Carma, que é a lei da Justiça Dinâmica e da Harmonização Constante. Nesse sentido, todos os seres são irmãos, embora possam ter idades muito diferentes.

Por outro lado, Blavatsky deu um enfoque mais profundo e científico a um fato que já havia sido popularizado pelos espíritas no Ocidente e por diversas religiões no Oriente: cada ser reencarna periodicamente em seu longo processo de evolução. À diferença dos espíritas, no entanto, Blavatsky ensinou que só a alma imortal ou eu superior reencarna, e não a personalidade (salvo contadas exceções, como quando há a morte de uma criança).

Uma das contribuições mais importantes de Blavatsky foi revelar e documentar a existência de uma sabedoria divina, eterna, ilimitada, presente em todas as culturas. Ela a chamou de Ocultismo, de teosofia, de doutrina secreta e de filosofia esotérica. Além disso, Blavatsky reavivou a memória da humanidade para o fato de que existem seres que estão em um estágio de evolução bastante superior ao da nossa humanidade. Eles se libertaram completamente da ignorância espiritual. Sobre esse ponto, vale a pena reproduzir um trecho do prefácio à edição brasileira de Cartas dos Mahatmas:

“Diversas religiões da humanidade preservam uma tradição segundo a qual uma coletividade de grandes sábios inspira e conduz, silenciosamente, a nossa humanidade no caminho que leva à paz e à sabedoria. O taoismo menciona estes sábios como Imortais, e o hinduísmo usa o termo Rishis. Para o budismo, eles são Arhats. Outros os chamam de Mahatmas, raja iogues, mestres de sabedoria, Adeptos ou, simplesmente, Iniciados. Segundo a filosofia esotérica, estes seres atingiram o Nirvana e libertaram-se inteiramente do estágio atual do reino humano, mas permanecem ligados à humanidade por laços de compaixão e solidariedade.” [Cartas dos Mahatmas Para A. P. Sinnett, Transcritas por A.T. Barker, Ed. Teosófica, vol. I, p. 21.]

São eles que mandam de quando em quando um grande instrutor filosófico ou religioso para acelerar a evolução humana, e tentam diminuir de várias maneiras nosso sofrimento e nossa ignorância.  

Finalmente, há uma ideia trazida por Helena Blavatsky que é decisiva para todos aqueles que buscam aperfeiçoar-se e viver corretamente. Trata-se da noção de que existe um discipulado, ou seja, de que é possível passar por um aprendizado inspirado pelos sábios imortais.  

De fato, a filosofia esotérica ensina que quando a alma de uma pessoa de boa vontade se volta para a fraternidade universal, ela chama a atenção desses instrutores. Passa, então, a ser suavemente inspirada – através da sua “voz da consciência” -, e é conduzida ao longo de um caminho íngreme, difícil, arriscado, de longa duração. Esse é o caminho da libertação espiritual, que cada alma deve percorrer ao longo de diversas encarnações.   

Diferentes tradições filosóficas e religiosas fazem alusões a esse discipulado. Vejamos, por exemplo, a imagem de um caminho estreito e íngreme como símbolo do processo. O filósofo Maximinus escreveu sobre o “Y pitagórico”:

“A letra pitagórica se abre em dois caminhos, mostrando as duas sendas a que a vida do homem é levada. O caminho da direita conduz à virtude sagrada, e termina em paz, embora íngreme e difícil no início; o outro caminho é amplo e suave, mas, do seu ponto mais alto, o viajante é lançado para baixo, caindo sobre rochas. Quem aspira à Virtude com duros esforços adquire valor e renome superando as dores; mas morre desonrado aquele que busca a preguiça e a luxúria e foge do trabalho das grandes obras.”  [The Pythagorean Sourcebook and Library, Phanes Press, Michigan, EUA, 1987, p. 158.]

A Escolha de Hércules

Mais tarde, em um texto de Xenofonte, o filósofo Sócrates cita as duas musas que visitaram o herói mitológico Hércules em sua juventude: a perversidade e a virtude. Vale a pena mencionar a história:

(…) Quando apenas dobrara a infância – nessa idade em que os jovens, já senhores de si, deixam ver se entrarão na vida pelo caminho da virtude ou do vício – Hércules retirou-se para a solidão e sentiu-se incerto quanto à via a escolher. Duas mulheres de avantajada estatura apresentaram-se-lhe ao olhar: uma decente e nobre, o corpo ornado de natural pureza, os olhos grávidos de pudor, o exterior modesto, as vestes brancas; a outra toda feita de brilho e moleza, a pele caiada a fim de aparentar cores mais brancas e mais vermelhas, procurando, na postura, parecer mais esbelta do que naturalmente o era (…); um adereço estudado para realçar seus encantos, mirando-se sem cessar, observando se a contemplavam e a todo momento voltando a cabeça para admirar a própria sombra. Aproximando-se de Hércules, enquanto a primeira conservava o mesmo olhar, a segunda, querendo antecedê-la, correu para o jovem herói e disse-lhe:

“Vejo-te, Hércules, incerto do caminho a seguir na vida. Se me quiseres tomar por amiga, conduzir-te-ei pela estrada mais agradável e fácil, provarás todos os prazeres e viverás livre de penas. Primeiro não te ocuparás de guerras nem negócios, mas não cessarás de examinar que iguarias e bebidas têm sabor melhor ao teu paladar, os objetos que possam deleitar-te os olhos e ouvidos, acariciar-te o olfato ou o tato, que afeição terá mais encantos para ti, como dormirás mais docemente, como poderás obter todos esses prazeres com o menor esforço. Se receias que venha a faltar-te o necessário para te dares tais doçuras, não temas que eu te obrigue a trabalhar e a penar de corpo e espírito para os adquirires; tirarás proveito do trabalho alheio e não te absterás do que quer que possa proporcionar-te ganho: porque dou aos que me seguem a faculdade de em toda parte obter vantagens.”

Hércules, após ouvir essas palavras, indagou-lhe:

“Mulher, qual é o teu nome?”

“Meus amigos” – respondeu ela – “chamaram-me Felicidade, e meus inimigos, para dar-me nome odioso, chamam-me Perversidade.”

Aí a outra mulher, adiantando-se, disse-lhe:

“Eu também venho a ti, Hércules; conheço os que te deram à luz e desde a tua infância observei teu caráter. Assim, espero que, se tomares o caminho que traz a mim, serás um dia autor ilustre de belos e gloriosos atos, e eu própria me verei mais honrada e considerada pelos homens virtuosos. Não te iludirei com promessas de prazeres: expor-te-ei o que existe com veracidade e tal qual o dispuseram os deuses. Do que há realmente honesto e belo, nada concedem os deuses aos homens  sem sacrifício  e esforço.  Queres que os deuses te  sejam propícios?  Homenageia-os. Ambicionas a estima dos teus amigos? Beneficia-os. Desejas que uma nação te honre? Serve-a. Queres que a Grécia inteira admire teu valor? Procura ser-lhe útil. Desejas que a terra te prodigalize seus frutos? Cultiva-a. Preferes enriquecer com rebanhos? Apascenta-os. Aspiras a fazer-te grande pela guerra? Queres tornar livres teus amigos e triunfar sobre teus inimigos? Aprende a arte da guerra com aqueles que a conhecem, exercita-te em pôr em prática suas lições. Desejas adquirir força física? Habitua o corpo ao império da inteligência e tempera-o no trabalho e no suor.”

Aí a Perversidade, retomando:

“Compreendes, Hércules, quão penoso e longo é o caminho da felicidade que te propõe essa mulher? Enquanto eu, é por estrada fácil e breve que te conduzirei à ventura.”

Então a Virtude:

“Miserável!” – disse – “Que bens possuis? Que prazeres podes conhecer, tu que nada queres fazer para obtê-los? Sequer deixas nascer o desejo: farta de tudo antes de ter desejado coisa alguma, comes antes da fome, bebes antes da sede. Para comer com prazer, vives à caça de cozinheiros. Para beber com prazer, procuras beber vinhos caríssimos e no verão corres a toda parte em busca de neve. Para dormir agradavelmente, procuras cobertas macias e leitos flexíveis. (…) Meus amigos saboreiam com prazer e sem artifícios alimentos e bebidas, porque esperam o desejo para comer e beber. O sono lhes é mais agradável que aos ociosos; interrompem-no sem pesar e não lhe sacrificam seus negócios. Quando jovens, sentem-se felizes com os elogios dos anciãos. Quando velhos, recebem satisfeitos os respeitos da juventude. Recordam com prazer as ações passadas e realizam com prazer o que lhes resta fazer. Por causa minha, são amados pelos deuses, caros aos amigos, honrados pela pátria. Ao soar a hora fatal, não dormem em esquecimento sem honra, mas sua memória resplandece celebrada ao longo das épocas. Aí está, Hércules, como, trabalhando, podes alcançar a suprema felicidade.” [Veja a obra de Xenofonte intitulada “Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates”, no volume “Sócrates”, Coleção Os Pensadores, Ed. Nova Cultural, Círculo do Livro S.A., SP, 1996, 303 pp. O trecho citado está nas pp. 90-92.]

Seja qual for o estágio de desenvolvimento em que está uma alma humana, a cada momento abrem-se diante dela pelo menos dois caminhos, um exteriormente fácil, feito do atendimento de desejos inferiores, e outro exteriormente difícil, feito de desapego e sabedoria. A felicidade produzida pela filosofia é interior, e duradoura. Já a felicidade da ignorância é apenas uma satisfação externa que provoca sofrimento mais adiante.

Um Trabalho Que Atravessa os Séculos

Adotando como sua essa imagem dos dois caminhos presente na Grécia antiga, o mestre Jesus ensina, no Novo Testamento:

“Entrem pela porta estreita, porque largo é o caminho que leva à perdição. E muitos são os que entram por ele. Estreita porém é a porta, e apertado o caminho que leva à vida.” (Mt. 7:13-14)

Em um nível mais complexo do ensinamento, esse mesmo “Y” pitagórico está presente no aprendizado da filosofia esotérica. Ao escrever sobre as condições do chelado – palavra sânscrita para discipulado – um Mahatma afirma, em uma carta de agosto de 1882:

“Um chela em provação tem permissão para pensar e fazer o que quiser. Ele é advertido e informado previamente: ‘Você será tentado e enganado pelas aparências; dois caminhos se abrirão diante de você, os dois levando à meta que você está tentando alcançar; um, fácil, e este o levará mais rapidamente ao cumprimento das ordens que você pode receber; o outro, mais árduo, mais longo; um caminho cheio de pedras e espinhos que o farão pisar em falso mais de uma vez; e no final do qual você pode, talvez, chegar a um fracasso, depois de tudo, e ser incapaz de executar as ordens dadas para um pequeno trabalho particular – mas, enquanto este caminho fará com que as dificuldades enfrentadas por você devido a ele sejam todas contabilizadas a seu favor a longo prazo, o outro, o caminho fácil, só pode oferecer a você uma gratificação momentânea, uma realização fácil da tarefa’.” [“Cartas dos Mahatmas para A.P. Sinnett”, Ed. Teosófica, Brasília, edição em dois volumes. Ver Carta 74, volume I, p. 343.] 

E Helena Blavatsky escreveu:

“Há um caminho íngreme e cheio de espinhos, rodeado de perigos de todo tipo – mas ainda assim um caminho; é ele que leva até o Coração do Universo. Posso dizer a vocês como encontrar Aqueles que lhes mostrarão o único portal secreto, que conduz ao interior […]. Para aqueles que vencem, há uma recompensa de valor indescritível: o poder de abençoar e salvar a humanidade. Para aqueles que são derrotados, há outras vidas em que o êxito poderá ser alcançado.” [“Helena Blavatsky”, de Sylvia Cranston, Ed. Teosófica, Brasília, 1997, 678 pp., ver p. 590.]

É tentando que se aprende. A única derrota é não tentar.

Um Reservatório de Insights

O pensador inglês Geoffrey Farthing escreve, em uma carta-circular de dezembro de 2002:

“A mensagem dos Mestres foi aquela que eles deram diretamente a nós em seus próprios escritos, nas Cartas dos Mahatmas, ou nos escritos em que eles usaram H. P. Blavatsky como auxiliar. Esses escritos devem ser distinguidos dos que vieram depois como comentários, opiniões pessoais, ou até paródias dos originais, mas que foram, no entanto, distribuídos como Teosofia. Os Mestres não apenas repetiram o que já era conhecido nas obras clássicas religiosas e filosóficas, mas acrescentaram muito material que até aquele momento havia sido mantido secreto. (…) Nós não temos o Instrutor, mas temos o Ensinamento intacto, e isso é um acontecimento da história mundial.” [“The Vision”, texto de Geoffrey Farthing aos membros da “Association of Master/HPB Theosophists”, de 5 de dezembro de 2002 e anexado a um memorando de 11 de março de 2003. Ver página 6.]

De fato, os alicerces da literatura clássica de filosofia esotérica foram plantados no período de 1875-1891, pelos Adeptos com ajuda de H. P. Blavatsky e outros discípulos avançados. Não há dúvida de que o convívio com essa literatura constitui uma oportunidade espiritual para o estudante. Mas não é fácil, para a personalidade terrestre, compreender a importância desse fato.

Podemos esquecer o caráter potencialmente decisivo dessa oportunidade, até porque hoje os livros da literatura teosófica clássica podem ser facilmente adquiridos. Eles fazem parte do nosso cotidiano – e tudo que é cotidiano parece corriqueiro. Mas talvez seja um absoluto privilégio ter, ao nosso alcance, instruções vindas diretamente de seres que atingiram a meta da evolução humana. Esse privilégio e essa oportunidade são resultados do trabalho e do sacrifício de muita gente sábia que viveu e sofreu antes de nós.

Para um estudante atento, as Cartas recebidas dos Mestres estão longe de ser a única fonte de inspiração. As fontes são incontáveis e brilham em cada aspecto da vida, dentro e fora de nós. As Cartas são apenas um reservatório ilimitado de insights – percepções intuitivas – sobre o aprendizado espiritual em geral e o discipulado em particular. Elas podem despertar em nós a capacidade de enxergar a luz – a habilidade de ter olhos para ver a sabedoria em todas as partes.

Qual é, então, a melhor maneira de estudar as Cartas? Ao ler esses documentos, podemos deixar de lado sem qualquer constrangimento as frases ou parágrafos que não nos dizem nada, para concentrar-nos nos fragmentos que são significativos para nós. Como todo bom texto de filosofia esotérica, as Cartas têm várias maneiras de falar a quem tem olhos para ler, e algumas dessas maneiras são intuitivas.

Por Que Não Há Cartas Recentes

De tempos em tempos, alguém pergunta: “por que os mestres já não escrevem mais cartas?”

A resposta é simples. O período de contato externo, verbal, ostensivo e por escrito entre os Adeptos e a humanidade ocorreu entre 1875 e 1891 e teve uma última manifestação em 1900. Esse período foi uma exceção às regras dos Adeptos, e uma exceção limitada no tempo e no espaço, autorizada e regulada pelo próprio “Chohan”, o mestre e chefe dos Adeptos que inspiraram a fundação do movimento teosófico. O período de contatos ostensivos terminou claramente em 1900. Eles só não se interromperam no terreno da fantasia irresponsável: hoje há gente que conversa com comandantes de frotas interestelares, outros preferem ver a Virgem Maria, ou ouvir Jesus, mas alguns têm orgulho de conversar com “Adeptos” e com “Mestres Ascensos”. Aliás, em geral essas mensagens chamam atenção pelo seu conteúdo fraco e pouco original. Elas fazem parte do folclore e da mitologia da “nova era”.

A verdade é que mesmo se, porventura, o contato ostensivo com os verdadeiros Adeptos fosse possível hoje, ele não seria necessário, e não faria sentido que discípulos leigos e aspirantes ao discipulado recebessem comunicações externas e verbais dos Mestres. Isso seria algo como fazer chover no molhado.

Sobre esse ponto, vale a pena lembrar um episódio misterioso, mas ilustrativo, da história do movimento esotérico. Henry Olcott escreveu que, em determinada ocasião, vários Mahatmas, estando reunidos em certo local, fizeram com que desfilassem na luz astral diante deles as imagens refletidas (como em um espelho) de todos os membros da Sociedade Teosófica na Índia. [“Applied Theosophy and Other Essays”, Henry Steel Olcott, Theosophical Publishing House, 1975, 280 pp., ver pp. 202-203.]

Não interessa, aqui, discutir os detalhes do episódio. Basta destacar o fato de que, naturalmente, se os Mahatmas decidissem fazer essa mesma revisão coletiva de auras com os estudantes de filosofia esotérica do século 21 – algo que, em tese, é perfeitamente possível – e se eles desejassem dar-nos indicações sobre como podemos seguir adiante em nossos esforços espirituais, eles não teriam que gastar energia mandando cartas, fisicamente, a nenhum de nós. As cartas e as indicações sobre o caminho espiritual já estão disponíveis. Como se sabe, eles têm como norma não desperdiçar energias. 

Do nosso ponto de vista mais prático e pragmático, portanto, as cartas dos mestres, hoje publicadas, não foram dirigidas apenas a algumas pessoas do século 19. Pelo contrário, as recomendações que as cartas contêm são válidas para todos os que buscam e buscarão viver e compreender a filosofia esotérica, ao longo dos séculos 21, 22, 23 e assim por diante. Ali estão indicações preciosas sobre o despertar da inteligência espiritual, buddhi-manas, um processo que prepara o surgimento das civilizações do futuro.

Os Vários Tipos de Discípulos

Do ponto de vista das condições práticas do século 21, pode-se dizer que o significado do termo discipulado é, simplesmente, processo de aprendizagem.

Discípulo, assim, é aquele que aprende – o aprendiz. E disciplina é o método de aprendizagem. O modo externo de desenvolvimento do discipulado e sua intensidade devem ser administrados com autonomia pelo próprio aprendiz, nos termos do método Paulo Freire. A pedagogia de Freire coincide, nesse ponto, com o método usado pelos Mahatmas.   

[Entre as numerosas cartas em que os Mestres afirmam o princípio da autonomia do aprendiz, veja a breve carta 95, em “Cartas dos Mahatmas Para A. P. Sinnett” (Ed. Teosófica, volume dois), as Cartas 42 e 43, primeira série, e a carta 72, segunda série, em “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, editadas por C. Jinarajadasa. Em relação a Paulo Freire, veja, por exemplo, “Pedagogia da Autonomia, Saberes Necessários à Prática Educativa”, Paulo Freire, Ed. Paz e Terra, SP.] 

Um verdadeiro instrutor espiritual jamais suprime a independência do estudante em relação ao rumo de sua vida e seu aprendizado.

O estudo das Cartas dos Mestres permite perceber vários tipos de discípulos ou aprendizes da sabedoria eterna.

Vejamos, em linhas gerais, quais são eles. 

1) O discípulo regular

Esse aprendiz é treinado pessoalmente e recebe instruções diretas, verbais, de um Adepto, com maior ou menor frequência, de acordo com o seu mérito e suas características. Esse foi o caso de pioneiros do movimento teosófico como Helena Blavatsky, Damodar Mavalankar, Henry Olcott, Subba Row, Mohini Chatterjee e Laura Holloway. O discipulado regular tem um estágio probatório, após o qual o aprendiz passa a ser um discípulo aceito, isto é, um discípulo regular propriamente dito. 

É interessante observar que os Mestres nunca tiram de um discípulo sua responsabilidade diante da vida. Mesmo que quisessem, eles não poderiam interferir de modo grosseiro com o carma dos seus discípulos, e essa é uma regra inflexível. Consequentemente, mesmo um discípulo regular e aceito, uma vez que esteja vivendo sujeito ao carma do mundo e longe dos ashrams dos Mestres, pode passar longos períodos de tempo iludido por falsas concepções, e por isso sem condições de receber impressões dos Mestres. Tudo indica que isso ocorreu com Subba Row, um discípulo avançado que cometeu erros importantes, afastou-se de HPB, rejeitou o trabalho que ela fazia sob direção direta de vários Mahatmas, e acabou cometendo erros pessoais graves que causaram sua doença e morte prematura. No entanto, sua derrota foi tática. Conta-se que, horas antes de morrer, suas últimas palavras foram: “O Mestre veio buscar-me. Não falo com mais ninguém”. Os erros de Subba Row foram parte do aprendizado da sua alma, e ele caiu de pé.

Outro exemplo dessa lei do discipulado, pela qual ilusões podem impedir ou turvar a inspiração direta dos Mestres mesmo no caso de discípulos regulares, aceitos e inclusive avançados, ocorreu com Henry Olcott. Falando de Olcott, um Mestre disse, em conversa com H.P. Blavatsky:  

“Tais são as razões por que (…..) ele (……)  nunca me percebe nem me ouve, ainda que seu pensamento pairasse mais de uma vez sobre a paisagem e a casa que você tornou familiar para ele um dia…”

Na mesma conversa, o Mahatma disse:

“Porque a Sociedade [Teosófica] libertou-se do nosso controle e influência e a deixamos ir – não fazemos escravos à força. Ele disse que a salvou? Ele salvou seu corpo, mas permitiu, por puro medo, que sua alma escapasse, e ela é agora um cadáver sem alma, uma máquina …”  [“Cartas dos Mestres de Sabedoria”, obra citada, Carta 47, primeira série, pp. 107-108.]

Mais tarde, HPB deu outro impulso ao movimento teosófico. Este último esforço foi feito a partir de Londres, onde viveu os anos finais da sua vida. 

2) O discípulo leigo nas condições do final do século 19

Esse tipo de aprendiz podia mandar cartas aos Mahatmas através de certos discípulos regulares, e recebia instruções e recados dos Mestres. Um exemplo concreto desse tipo de discipulado leigo foi a cooperação dos ingleses Alfred Sinnett e Allan O. Hume com os Mestres.

3) O discípulo leigo consciente nas condições pós-1900

Esse aprendiz é alguém que:

a) sabe ou percebe que os Adeptos existem;

b) estuda os seus ensinamentos;

c) tenta compreender e colaborar com o trabalho deles pela humanidade; e

d) dentro das suas possibilidades, realiza as tarefas do discipulado.  Na medida da sua perseverança e da seriedade dos seus esforços, o estudante de filosofia esotérica que colocar o seu coração a serviço do ensinamento será um bom discípulo leigo, isto é, um bom aspirante ao discipulado regular.   

Um Mestre escreveu:  

“Como Subba Row lhe explicou, a meta do filantropo deve ser a iluminação espiritual dos seus semelhantes, e seja quem for que trabalhe com altruísmo para esse objetivo coloca-se necessariamente em comunicação magnética com nossos chelas e conosco.” [“Cartas dos Mestres de Sabedoria”, obra citada, Carta 31, primeira série, p. 87.]

Portanto, não se pode dizer, de modo algum, que não haja contato entre os Mahatmas e os discípulos leigos pós-1900. Porém, esse contato não é verbal nem visual.  Sua existência  dependerá da ligação entre a alma imortal e a personalidade do próprio discípulo, porque o Mestre nunca se manifesta exceto através do sexto princípio, e é o acesso do aprendiz ao seu próprio sexto princípio – buddhi, a alma espiritual – que o colocará dentro do campo de observação e de ação dos Mestres de Sabedoria. É essencial compreender que se trata de um campo magnético, conforme fica claro na citação acima: a área de observação e ação dos Mahatmas é um campo de afinidades que se dá por padrões nobres e puros de vibração mental e emocional.  

Em outra passagem das cartas, um Mestre retoma a questão do contato vivo, porém não-verbal e não visual, entre Mestres e aprendizes leigos. Ele escreveu a Alfred Sinnett:  

“A Natureza uniu todas as partes do seu Império por meio de fios sutis de simpatia magnética, e há uma relação mútua até mesmo entre uma estrela e o homem (…). Assim como a luz no vale sombrio é vista pelo montanhista do alto dos seus picos, cada pensamento luminoso em sua mente, meu Irmão, brilhará atraindo a atenção deste seu distante amigo (…). Se descobrimos deste modo os nossos Aliados naturais no Mundo (….) e nossa lei manda aproximar-nos de todo aquele que tenha o mais leve lampejo da verdadeira luz do ‘Tathagata’ –  então tanto mais fácil será para você atrair-nos!” [“Cartas dos Mahatmas”, obra citada, Carta 47, volume um, final da p. 217 e metade superior da p. 218.]

Há pelo menos dois pontos fundamentais no trecho acima:

1) A lei dos Mestres manda que eles se aproximem de todo aquele que tenha o mais leve lampejo de luz búdica, e isso pode incluir o mais humilde estudante de filosofia esotérica, e qualquer pessoa que tenha uma mente aberta, um coração puro e uma boa vontade diante da vida;

2) Cada luz no “vale sombrio” é vista pelo observador situado no pico das montanhas – isto é, cada indivíduo que tenha lampejos de inteligência verdadeiramente espiritual pode estar dentro do campo de observação dos Raja-Iogues e Adeptos.

Um aspecto importante do processo dinâmico de inspiração no discipulado leigo pós-1900 está definido por um Adepto na famosa Carta de 1900:

“Em períodos favoráveis, liberamos influências elevadoras que impressionam várias pessoas de diferentes maneiras. É o aspecto coletivo de muitos destes pensamentos que pode dar o rumo correto à ação.” [“Cartas dos Mestres de Sabedoria”, obra citada, Carta 46 da primeira série, p. 106.]

O aspecto coletivo da inspiração torna necessário ter presente a bem conhecida regra – mencionada por um Mahatma – sobre o sentimento de boa vontade entre estudantes de filosofia:

“Um grupo de estudantes das Doutrinas Esot. que queira obter qualquer proveito espiritual deve estar em perfeita harmonia e unidade de pensamento. Cada um, individual e coletivamente, deve ser, no mínimo, totalmente altruísta, gentil e pleno de boa vontade em relação a cada um dos outros – para não falar da humanidade; não deve haver espírito de facção em meio ao grupo, nem maledicência, má-vontade, inveja ou ciúmes, desprezo ou cólera. O que fere um deve ferir o outro – aquilo que alegra ‘A’ deve encher ‘B’ de prazer.”

[Veja o item III, Carta 3, primeira série, em “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, pp. 24-25. Neste trecho a tradução está revisada levando em conta o original em inglês.]

Do ponto de vista prático, no entanto, não há qualquer necessidade de atribuir à ajuda de algum Adepto as inspirações e expansões que sentimos em nossa consciência espiritual. Bem pelo contrário. Deve-se evitar trazer o processo de inspiração para a linguagem do mundo tridimensional, porque essa vontade de rotular produz vaidade, e trava e impossibilita o processo no que ele tem de melhor e mais autêntico. Personalizar e dar nomes é trazer para baixo a vibração. 

Basta saber que, de certo modo, as pessoas de boa vontade que possuem um razoável discernimento e uma certa amplitude de horizontes na busca da fraternidade universal estão dentro do campo de observação dos Mahatmas e de seus discípulos avançados. O desafio prático do estudante e do aprendiz está bem colocado nessas palavras de Kahlil Gibran, em uma obra que, significativamente, é intitulada “A Voz do Mestre”:

“Quando a Razão te fala, presta atenção ao que ela diz, e te salvarás. Faze bom uso de seus preceitos, e serás como homem armado. Pois Deus não te poderia ter dado nem melhor guia nem melhor arma que a Razão. Quando a Razão fala ao mais profundo do teu íntimo, estás à prova do Desejo. Pois a Razão é um ministro prudente, um guia leal e um sábio conselheiro. A Razão é a luz na treva, assim como o Ódio é a escuridão em meio à luz. Sê sábio – deixa que a Razão, e não o Impulso, seja teu guia.” [“A Voz do Mestre”, Kahlil Gibran, Círculo do Livro S. A., SP, 1975, 123 pp., ver parte dois, capítulo seis, p. 63. A palavra “Deus”, aqui, pode ser traduzida por “Lei Universal”.]

4) O discípulo leigo inconsciente

Esse tipo de aprendiz nada sabe sobre os Adeptos, ou não crê na existência deles mas, mesmo assim, recebe sua ajuda e inspiração.  Para compreender  essa forma de discipulado,  é necessário conhecer certos aspectos técnicos interessantes. No caso de todos os tipos de discípulos leigos, os Adeptos limitam o seu interesse pelos aspectos internos e superiores da alma humana, e costumam ignorar os assuntos da casca externa e da personalidade. Mas, como vimos, eles são capazes de observar qualquer luz búdica que se acende na mente de algum ser humano.

Assim, o verdadeiro discipulado independe do fato de a pessoa saber ou não, na sua consciência mental e cerebral, da existência de Mahatmas. De fato, há numerosos casos de discípulos leigos ativamente inspirados e até protegidos pelos Mestres que nem sequer sabem da existência deles ou da existência de um caminho espiritual nos termos da filosofia esotérica. Essas pessoas simplesmente trabalham com altruísmo pelo bem da humanidade. Isso as coloca de imediato dentro do campo magnético de observação e de inspiração telepática dos Mahatmas.

O altruísmo, no entanto, deve surgir espontaneamente e nunca pode ser resultado de alguma tentativa do aprendiz no sentido de manipular seus próprios sentimentos. Há estudantes que convencem a si mesmos de que têm sentimentos generosos e até se orgulham disso. Outros pretendem “regulamentar a generosidade” por meio de regras fixas de comportamento.

Na verdade, nossa boa educação é frequentemente uma camada de verniz social que destrói a sinceridade e transforma a vida em um jogo de cartas marcadas. O discípulo deve ir além dessas encenações, mesmo que, por causa disso, nem sempre seja bem compreendido.

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